Fernanda Bastos: Romance e poder

Participava, em dezembro, de uma atividade literária na Vila Mapa em Porto Alegre, quando uma atenta mediadora de leitura trouxe à tona a provocação de um palestrante que havia compartilhado uma inquietação. Ela relatou que recebeu com estranhamento a análise dele de que a literatura brasileira estava de costas para o poder. Isto é, escritores estavam desinteressados pela narrativa dos meandros do governo.

Isso significa dizer que vem sendo abandonada uma narrativa que era um ímã para escritores do quilate de Lima Barreto, que elaborou sua visão ríspida dos primeiros anos da República sob o comando de Floriano Peixoto em “O triste fim de Policarpo Quaresma” (o exemplo é meu). Prontamente identifiquei a fala do palestrante como a do professor universitário e escritor Luís Augusto Fischer, que há algum tempo tem levantado essa questão publicamente, em jornais e em palestras. Na impressão da mediadora, enquanto o professor reclamava da falta de romances sobre o poder, deixava de lado toda a produção pujante que tem se centrado sobre as narrativas das existências negras, periféricas, LGBTs, uma marca positiva de nosso tempo.

Um elemento que deve ser contabilizado no sintoma percebido pelo professor é a crescente rejeição à política institucional, a dos partidos e das esferas de poder, bem como à democracia como sistema representativo e potente de produção de mudanças na vida dos sujeitos. Esse fenômeno tem sido apontado por diferentes estudiosos das relações sociais e aparece até mesmo no resultado das urnas.

Outro elemento a ser considerado tem relação com a conjuntura nacional. Diante do cotidiano despudorado da política observado pelos brasileiros, não ficaria mais difícil produzir um relato sem cair no maniqueísmo ou na mera reprodução de manchetes fantásticas, com malas milionárias e laranjas fonsequianos. Se a política investe cada vez mais na personalização e no teatro, como retratar o que já é figurado, sem cair na reprodução hiperbólica ou esquemática? Uma política teatral e opaca é narrável?

A escritora mais relevante viva e nascida antes dos 1970 Conceição Evaristo difundiu o termo escrevivência atribuindo a ele um sentido pessoal e político: relato do cotidiano e das lembranças, síntese da experiência do sujeito e do seu povo. No caso dela, o conceito representa libertação e autoconsciência para a escrita de sujeitos negros em uma sociedade racista e opressora. Afastados do poder, escritores e escritoras voltam-se para o self, em muitos casos reproduzindo um narcisismo característico de seu tempo, mas também exercendo uma escrevivência radical.

O movimento que Conceição tem o mérito de corporificar responde a uma demanda represada de romances escritos por mulheres urbanas independentes, pessoas negras e LGBT+, narrativas que vêm impondo-se no cenário contemporâneo, inclusive com superioridade de projeto estético. Até que essa vazão se conclua, nada parece mais pertinente a se dizer, visto que homens brancos cis, de classe média alta tiveram suas narrativas super visibilizadas sem contraponto. Antes que eu seja acusada de proselitismo, como está na moda, anoto que vários produziram textos memoráveis; outros, no entanto, parecem ter esgotado em si mesmo os seus projetos.

Ainda não há um equilíbrio nessas forças, mas a tendência é de que por muito tempo as narrativas de revanche ao status quo apresentem-se, e leitores e leitoras estão ávidos por essa velhas histórias contadas como novidades nos catálogos das editoras e nas mesas de universidades onde homens e mulheres brancas, cis e de classe média são maioria (quando não privatizaram o espaço).

Esboço ainda um quarto elemento: o desprestígio da classe artística junto ao poder. A profissionalização da política tem afastado escritores dos altos escalões. Diversos autores continuam atrás de postos públicos para se sustentar, pois é histórica a necessidade de um segundo emprego além do de escritor. No entanto, quantos dos que são funcionários públicos são hoje chefes de seus departamentos ou conselheiros dos sujeitos responsáveis pelas tomadas de decisão?

Notável desse tempo de boas trocas entre artistas e poder público foi a relação mantida entre Carlos Drummond de Andrade, espécie de conselheiro do gestor da Cultura Gustavo Capanema, sobre quem exercia grande influência. O poeta incidiu até sobre o projeto estético e arquitetônico do então prédio do Ministério da Educação e Saúde. Hoje, que artista destacado desfruta de confiança similar? E qual alcança tamanho prestígio? Que notável político convida artistas para uma conversa ou para suas inaugurações pomposas? Nos poucos casos que podemos citar de artistas que ocuparam recentemente cargos de comando ou influência sobre o comandante, cabe ainda perguntar quanto de liberdade esse sujeito possuiu sobre a administração que compôs ou ainda compõe.



Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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