Luiz Maurício Azevedo: A menos que você se torne David Lipsky

Há várias coisas importantes aqui nesse momento: um exemplar de The Art fair, escrito por David Lipsky em 1996 e ainda não lido, alguns boletos não pagos, com nome de empresas que parecem promessas de salvação, uma caixa de Motilium, dez miligramas, que ajuda a engolir o mundo. E há uma antiga piada, que eu gosto muito, sobre um escritor de sucesso que perdeu a memória e acabou lendo, por acidente, um dos livros que ele mesmo havia publicado. Decepcionado com o que acabara de ler, ele teria sentado para escrever uma crítica feroz, onde condenaria a falta de rigor estético dos autores contemporâneos. No texto, ele classificava a obra de “anódina aparição literária” e, após apontar de forma sistemática os oito momentos onde a narrativa apresentava falhas na construção do enredo, sentenciava: “Esse livro tem problemas de estilo. Esse livro tem problemas ortográficos. Esse livro tem problemas de estrutura. A única coisa que esse livro não tem é problemas na impressão. A gráfica está de parabéns. O capista também”. O texto acabou sendo publicado em algum suplemento literário nacional lido por trezentos e vinte e sete pessoas; e se tornou presença obrigatória na bibliografia de setenta dos cento e vinte e um cursos de Redação Criativa no Brasil.

Tá legal, não era uma piada. Era mais uma anedota, um chiste. E eu sei que não tem graça. Escritores não sofrem de amnésia. A identidade narcisística só existe no mito. Em 2019, o Narciso não mergulha. No mundo atual, Narciso procura uma professora universitária, em um programa de pós graduação em Letras, e é aprovado em quarto lugar (os dois primeiros colocados foram ex- orientandos de mestrado do coordenador do pós; a terceira colocada era amiga de infância da orientadora, chegaram a participar juntos dos protestos por Diretas Já).

Então, Narciso começa seu doutorado cheio de confiança: ele vai provar que a crise da atualidade é justamente o esvaziamento – Narciso usa muito essa palavra – da consciência de narcisividade. Ele pretende usar Foucault, Bordieu, Ricoeur e Wood (principalmente Wood). Apesar de aceitar que seu trabalho terá certa pegada historicista, ele não quer, é claro, “a tese seja um tribunal sobre o comportamento moral dos autores, porque, afinal os autores que eu vou analisar são todos de um tempo diferente do nosso. Não aceito que misturem autor e obra”.

Particularmente, eu gostaria que Narciso morresse. Está em mim desejar o impossível. Sou como um computador mal programado que, operando a mesma falha, oferece sempre o mesmo viciado resultado. É bom saber dos próprios limites. Aprendi isso uma vez, no Globo Repórter. Vejo muita TV. É uma doença.

O autor norte-americano David Foster Wallace também via muita televisão. Sua obra máxima, Infinite Jest é, para quem olha de fora, só uma história de mais de mil páginas, pesando mais de um quilo de papel, tinta preta em papel polen soft, com gramatura de 80 gramas, unidas por cola quente. Para os de dentro, trata-se de uma obra-prima, onde o gênero de ficção científica é levado a um intenso processo de renovação estética radical.

David é o anti-narciso, o anti-adulação, o anti-autoengano, o anti-escritor-esquecido-de-si- mesmo. Há pouco mais de dez anos ele foi encontrado morto em sua casa. O suicídio sempre foi um combustível poderoso para o interesse literário porque literatura talvez tenha mesmo a ver com aquele detalhe extra-literário chamado vida. Seus livros revelam que a literatura está sempre escondida, e o esforço de retirá-la de seu esconderijo e trazê-la à luz do dia só é comparável, talvez, a do psicanalisado que corre desesperadamente em direção a seus próprios traumas, na esperança de que, de perto, eles pareçam mais nítidos.

Quanto a Narciso? Vai qualificar em março.



Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s