Fernanda Bastos: Uma intelectual em Porto Alegre

Com frequência a literatura de ficção tem nos orientado a olhar para o mundo como se ele não passasse de uma maquete ou como se ele fosse uma realidade em 4D, a depender de sua complexidade. A literatura de não-ficção, por outro lado, nos dá a oportunidade de que, diante do espelho, olhemos criticamente o reflexo. É isso que tem proposto Sueli Carneiro à sociedade brasileira pelo menos desde aos anos 1980, quando começaram a circular seus escritos na imprensa e no movimento negro.

Se o caso Dreyfus expôs o poder que a postura pública de artistas como Émile Zola produzia sobre a opinião pública e os poderes, a intelectualidade no Brasil deve muito à persistência e ao autodidatismo de Sueli Carneiro. Com o mesmo compromisso ético que marca a tradição de intelectuais desde o caso rumoroso de preconceito e corrupção na França, Sueli tem apontado o racismo que a sociedade brasileira insiste em negar. Filósofa, criou e coordena o Geledés – Instituto da Mulher Negra, que impulsionou o debate público sobre necessidade de adoção de políticas públicas para combater as variadas manifestações do racismo e dar oportunidade iguais a todos no Brasil.

Por ser esse um momento de celebração do legado de sujeitos negros, Sueli é homenageada na 12ª FestiPoa Literária. O evento tem movimentado a cidade de Porto Alegre, possibilitando debates sobre livros, autores e autoras, para além de localismos e sugestões óbvias. Lembro que, em certo ano em que participei da programação, uma amiga comentou que estava “vindo todos os dias para conhecer novos autores”. Com o quase sumiço e o evidente enxugamento na imprensa das páginas voltadas para a literatura, por falta de vendas, o evento tem funcionado como um farol para a formação de leitoras, apresentando nomes consagrados mas pouco celebrados, além de apostas.

Um das atividades propostas para esse ano é um encontro com Sueli Carneiro, que será precedido de leituras preparatórias para a vinda da homenageada. A ideia é relembrar seu protagonismo na luta antirracista e no feminismo negro, por meio de seus ensaios e textos teóricos que abordam o preconceito racial que estrutura nossa sociedade, pontuando casos do cotidiano, como manifestações nas mídias, em jornais e novelas. Sueli apresenta pesquisas, muitas de sua própria iniciativa, e largo conhecimento sobre as raízes africanas do povo brasileiro, bem como a opressão para que essa origem comum à maioria da população seja renegada.

Em tempos bicudos para quem busca financiamento para cultura, também é importante oferecer apoio para que ela aconteça em plena forma. Além de ser plateia, uma das maneiras de contribuir para qualificar o evento é participar do financiamento coletivo do projeto educativo, uma novidade desse ano. O objetivo é disponibilizar dez ônibus para escolas localizadas fora da região central de Porto Alegre, como Restinga, Lomba do Pinheiro, Rubem Berta e Morro da Cruz para que estudantes desses bairros possam participar das atividades no Salão de Atos da UFRGS. Alguns escritores participantes da programação também irão se deslocar até essas escolas. Se gostou da ideia e quer participar dessa iniciativa, deixe sua contribuição em https://apoia.se/festipoa e acompanhe a movimentação aqui no Literatura RS. A gente se vê por lá!

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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