Luiz Maurício Azevedo: A literatura como conceito

Talvez tenha havido um tempo dourado em que se discutia Teoria Literária nas universidades, a partir do ponto de vista crítico e não da procura desesperada pela instrumentalização mais escolar eficiente. Talvez. O certo é que hoje grande parte dos cursos de Letras se baseia na necessidade (legítima, mas insuficiente) de melhorar as estratégias pedagógicas da educação básica. Assim, se constrói o cenário no qual o ENEM pauta as faculdades medíocres. E, do outro lado ficam as universidades (não mais que sete, eu contei) onde o aluno é incentivado a pensar de modo teoricamente consistente a – não encontrei palavra melhor – literatura. Esses estabelecimentos ainda acreditam em uma função crítica da produção intelectual e parecem resistir bravamente à evidência do fracasso do Iluminismo e à erosão do lugar do pensamento na sociedade de consumo. Fato é que, grosso modo, a universidade brasileira não parece estar tão interessada assim nisso. Entre uma e outra mobilização contra a Reforma da Previdência ou contra o governo de plantão, ela já perdeu a condição física de fazer aquele que deveria ser seu trabalho principal: produzir crítica. O fato de a maioria dos professores de Letras acreditar que é preciso gastar o tempo com postagens e  campanhas sobre o “mundo real” (e não sobre literatura) dá a real dimensão do conceito de literatura que carregam. Eles possuem imensa dificuldade de articular estética e engajamento; e dessa inabilidade nasce uma espécie de atrofia dos objetos literários que escolhem. Justamente porque já determinaram que a literatura não pode abarcar as questões do universo social, abdicam de cobrar dela qualquer coisa que escape aos primitivos exercícios de separação silábica, que nas aulas de literatura ganham o nome de estratégias de escansão poética.

A maioria dos professores faz essas coisas por ingenuidade intelectual,  por achar que podem prescindir da tarefa de construção de um conceito de literatura. A má notícia para eles é que não podem. Motoristas da Uber, sommeliers, técnicos de times de futebol, neurocirurgiões, baristas, ortopedistas, chaveiros, todos esses podem abrir mão de um conceito de literatura. Não fará falta. Para os professores de literatura, no entanto, ter em mente um conceito de literatura – e ensinar de acordo com ele – é obrigatório.

Se os cursos de Letras continuarem a fingir que a função deles é “sensibilizar os indivíduos para os poderes da literatura” ou “cultivar o terreno para o nascimento de uma nova geração de leitores” (só para ficar em duas das grandes bobagens que tenho ouvido de meus pares) podem acabar se perdendo por aí, como simulacros de Carolina Maria de Jesus, que repetem sem parar: “Olha que vou acabar botando você na bibliografia do meu próximo curso, hein?”

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel.


Literatura RS

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