Fernanda Bastos: Mímesis de esposa

No início do ano inventei um tempo livre em alguma tarde de sábado para ir ao cinema assistir A esposa, longa dirigido por Björn Runge e que poderia ter rendido estatuetas do Oscar para Glenn Close e Jonathan Pryce (quem acompanha GOT, tem medo dele mesmo em outros personagens). Saí do cinema e rapidamente enviei uma mensagem para a Priscila Pasko, pois precisava saber o que outras mulheres escritoras pensavam sobre aquela agitação que o filme me trouxe.

A história orbita em torno da esposa de um escritor que vence o Nobel. Acostumada a premiar homens, a Academia Sueca produz, no longa, diversos constrangimentos que acentuam a desigualdade de tratamento entre o escritor consagrado e a esposa devotada. Somos gradualmente apresentados ao passado da esposa e sua relação com a escrita, que parece adormecida no presente em que se passa a premiação do Nobel.

Só o fato de uma escritora casar-se com um escritor mais velho e viver à sombra do talento dele seria por si só um tema interessante para desdobramento em filme. No entanto, a trama se complexifica. Se você não viu o filme, cuidado, aqui vai um spoiler: a esposa é o Nobel. A revelação do furto de autoria é feita pelo biógrafo do marido, que ela promete processar se trouxer a história real à tona. Complexa, a personagem de Glenn Close não cede a qualquer expectativa de assumir a posição de mártir ou de justiceira feminista. Embora entenda suas razões, fiquei com a impressão de que ela se torna tão odiosa quanto o marido. A trama é baseada no livro da escritora norte-americana Meg Wolitzer, que leva o mesmo título do filme The wife (não há versão brasileira publicada da obra).

Eis que nessa semana uma notícia chega atualizando a produção cinematográfica. The Guardian, seguido, aqui no Brasil, por Folha de S.Paulo e O Globo, noticiam o achado da biografia que Benjamin Moser está preparando sobre Susan Sontag que é o de que ela seria a verdadeira autora da grande obra de seu primeiro marido Philip Rieff, o livro Freud: Pensamento e Humanismo.

A biografia ainda não está à disposição dos leitores, mas reportagens sobre o caso destacam que as evidências de autoria de Sontag são sustentadas por declarações dadas por amigos do casal e pelos diários da autora, que revelariam sua dedicação ao texto sobre Freud, além das primeiras edições que trazem agradecimentos especiais à esposa, suprimidas após o divórcio. A partir desses dados, Moser sustenta que a autoria do livro foi trocada por Sontag pelo direito à guarda do filho que teve com Rieff.

A revelação certamente deve aquecer a recepção à biografia, opondo aqueles que correrão apaixonados pela tese de Moser e aqueles que a rejeitarão contundentemente. O interesse por biografias depende sempre da tese do biógrafo, ou em casos de figuras muito conhecidas, da atualização que se faz da trajetória de vida da criatura retratada. Bom exemplo desse processo se dá com Lima Barreto, cuja história de vida riquíssima, farta em dramas, foi descrita por Francisco de Assis Barbosa ― ele próprio um imortal como Lima Barreto nunca conseguiu ser ― em 1952 e revitalizada em 2017 com o trabalho de Lilia Moritz Schwarcz, reconhecida pesquisadora do debate público racialista no Brasil e que enfatizou os elos entre esse debate e a recepção à obra de Lima Barreto.

Nós, que amamos literatura (ou talvez apenas gostemos de acreditar nisso), adoramos fofoquinhas literárias. A maledicência humaniza um mundo com aura de núcleo rico de telenovela, aquele onde, na superfície, tudo parece elegante e perfeito, mas que, em profundidade mostra-se uma máquina de barracos e escândalos diários, sob os quais acomodamos nossa frustração e inveja.

Pois bem. Será que a recepção do livro seria a mesma se a personagem de Glenn Close assinasse a obra e não o marido? Ela chegaria a ganhar o Nobel? E, se ela assinasse sua produção desde o início, como ser o centro das atenções, sem o fetiche de ser a autora não revelada, afetaria sua produção?

Com essas muitas perguntas na cabeça, termino a coluna, porque preciso, agora, refletir sem limites.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

Literatura RS

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