Luiz Maurício Azevedo: A invisibilidade crua

Eram nove horas e trinta e sete minutos do dia dezesseis de abril quando a equipe médica do hospital Mount Sinai, em Nova York, emitiu um boletim informativo, atestando que o paciente Ralph Waldo Ellison, vencedor do National Book Award de 1953, perdera a vida, em decorrência de um câncer pancreático. Ellison, que nascera em 1914, em Oklahoma City, no segregado Estado de Oklahoma, e que perdera o pai muito cedo, estava agora também morto. Longe das comoções que as mortes prematuras provocam, o que se sucedeu foi uma série de homenagens mornas, constrangidas até, resultado de oito décadas de um comportamento que dificultava afeições sociais.

Em 1952, exatos cem anos depois da autora Harriet Beecher Stowe transformar o país com seu abolicionista A cabana do pai Thomas, Ellison apareceu com seu libertário Homem Invisível, a surpreendente história de um homem negro que, cansado dos enganos da vida social e do racismo, decide morar no subsolo da cidade, entre cabos elétricos, ratos e solidão. Rapidamente, a obra se transforma em uma metáfora. Para os anarquistas, trata-se de uma rejeição a qualquer tipo de tutela, seja do Estado, seja das instituições civis; para os liberais, é a história sobre como a regulação da vida tem matado a própria pulsão de vida. Para a comunidade negra, tratava-se de um conto de libertação e de denúncia das consequências psíquicas da mais renitente das chagas: o racismo. Como se vê, cada grupo estabelecia com o livro um tipo particular de diálogo, como se estivessem frente a uma paisagem com significados múltiplos.

Há uma dupla articulação na obra: por um lado Ralph Ellison parece confortável em produzir um narrador que vai ser uma espécie de porta-voz do sentimento de opressão negra; por outro, o autor deixa transparecer aversão a qualquer tipo de celebração coletiva da identidade. É uma obra anti-lacramento; anti-proselitismo e anti-incorreção política. Em Homem Invisível, livro que influenciou de Barack Obama a Cornel West, não há concessões ou saídas fáceis. O que está em jogo ali é o resgate de uma individualidade, e a tese de que o racismo invisibiliza o ser humano, transformando pessoas em símbolos.

No Brasil, país de vergonhosa vida editorial, o livro permaneceu inédito até 1990, quando a Editora Marco Zero – hoje parte do Grupo Editorial Record – publicou uma impecável versão nacional, com tradução de Marcia Serra. O livro se esgotou e foi editado somente em 2013, pela José Olympio (também Grupo Editorial Record), com tradução de Mauro Gama. Por aqui, a obra é sempre confundida com O Homem Invisível, de H.G Wells, mas possui outras influências bem mais profundas e profícuas: Memórias do Subsolo, do russo Dostoiévski; e o mito platônico de Giges, segundo o qual um homem encontra um anel com poderes especiais, que o torna invisível sempre que desejável. A invisibilidade em Ellison não é uma faculdade, uma dádiva de super-heróis. A invisibilidade é como uma doença, uma chaga social, uma falha trágica que acompanha os indivíduos negros.

Quando olhamos para os negros, vemos – talvez hoje mais do que nunca – toda carga histórica que povoa nosso imaginário particular. Na melhor das hipóteses vemos Malcom X, vemos Zezé Motta, vemos Prince, vemos Taís Araújo, vemos Angela Davis, vemos Spike Lee, vemos Toni Tornado, vemos Pelé, vemos Alice Walker, vemos Mano Brown e Lázaro Ramos. Na pior das hipóteses – e a realidade é sempre a pior hipótese – vemos todos os bandidos que nos levaram todos os relógios de todos os nossos pulsos brancos; vemos todos os estupradores de todos os corpos puros de todos os nossos anjos encarnados; vemos todos os catadores de lixo, que emporcalham a frente de nossa rua, procurando sempre aquilo que não temos; vemos todos os golpistas sempre prontos a levar alguma vantagem e a corroborar nossa suspeita (quase certeza) de que seria melhor para mim, para você, para o país, que tivéssemos sido colonizados por um povo mais sério e menos misturado, como os japoneses. Vemos todas as violências praticadas; vemos um escravo, uma escrava; vemos um figurante de filme do Cacá Diegues; vemos um reflexo fantasioso do processo de miscigenação racial que produziu sangue, Síndrome de Estocolmo e cabelo alisado. Vemos o que não está ali, uma fetichização grosseira da experiência negra sobre a Terra, ou em palavras ainda mais diretas: vemos uma ideologia, um véu que nos impede de enxergar as coisas como elas são: o racismo é um tipo de cegueira que invisibiliza o outro, fazendo do diferente um mero reflexo de nossa própria individualidade.

Para o Homem Invisível tudo o que empreende termina em fracasso. Tudo o que ele acredita ser real acaba se revelando falacioso; aos poucos é como se essa falsidade fosse a real essência das coisas que vê. E é justamente de dentro de sua invisibilidade insuportável que surge a consciência que o resgata da objetificação. É somente no exame minucioso – e nada autoindulgente da própria experiência – que um ser humano pode encontrar sua redenção.Homem Invisível é, pois, um bildungsroman amargo, sobre ruptura, vilipêndio e decepção. E continua bastante vivo nas mortes de Trayvon Martin, Eric Garner e Marielle Franco; e na neurose profunda de quem cobra de cada indivíduo negro a fatura que deve a ele. Este é um livro nocivo para os que desejam condenar a literatura ao regime de açúcar e farinha, onde se sacrificam estética e risco, em nome de consensos fáceis. É bom que assim o seja, porque qualquer literatura que negue a materialidade urgente das angústias humanas, com o argumento cínico de que transcendência pressupõe assimetria, já não interessa a nós, que vivemos na parte de baixo.

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel.


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