Fernanda Bastos: Treze perguntas para a classe artística

1. Qualquer evento com cachê rendoso vale o aceite?

2. A instituição que promove a atividade para a qual fui convidada merece ser questionada em razão de eventuais práticas condenáveis do passado?

3. Vale aceitar verba de gestões públicas que atacam populações ou de empresas que exploram os funcionários da instituição promotora do evento?

4. É necessário exigir saber de antemão qual o formato do evento e quem vai?

5. Quando recebemos um prêmio e o júri é, por exemplo, todo formado por pessoas brancas ou todo formado por homens cisgêneros, ainda nos interessa essa premiação?

6. Vale receber o título e fazer um discurso louvando os esquecidos pela premiação? Essa é uma espécie de saída honrosa ou mera hipocrisia?

7. Hattie McDaniel, atriz norte-americana que recebeu, em 1940, o Oscar de atriz coadjuvante, tornando-se a primeira mulher negra a obter essa distinção, pelo filme …E o vento levou, fez história nesse posto, mas a narrativa que ajudou a construir em nada propõe uma ruptura com as opressões históricas que seu país compeliu à gente negra, o que legou a ela desprezo explícito em sua própria comunidade. Em casos como esse, a premiação é mérito ou desgraça?

8. Quando nos convidam para uma feira do livro e não há gente negra na organização ou mulheres e LGBT’S no comando, devemos recusar o convite?

9. Devemos dizer não à convite de editoras que desejam publicar nossos livros, mas que não apresentam diversidade racial/étnica em seu corpo diretivo?

10. O que fazer com o aluguel, a conta do supermercado, o boleto do plano de saúde e com as demandas financeiras da vida cotidiana que não podem ser pagas simplesmente com a palavra resistência?

11. No ensaio Refusing to Be a Victim, a escritora bell hooks, longe de fazer concessões ao pensamento em função de sua militância, alerta sobre o risco da vitimização como ferramenta. Pensar-se como vítima é imobilizador e desempoderador, escreveu bell hooks. A autora sustenta que a denúncia do racismo, sexismo, exploração e opressão sexistas não podem sucumbir ao desejo de vitimização. O que fazer quando o carrasco dos outros paga os nossos cachês?

12. Com frequência observo colegas escritores e escritoras acreditarem que um lineup que contemple a diversidade de nossa sociedade contemporânea é capaz de consertar todo o mundo. Afinal, por que acreditamos que somos melhores do que a sociedade que nos cospe?

13. Magoados e magoadas com a evidência de que a literatura também opera opressões em nossas identidades vitimizadas, esquecemos de mencionar os agentes que recebem essas curadorias carrascas, como se fossem culpa dos indivíduos apenas. Afinal, por que queremos matar os curadores e salvar as instituições?

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

Literatura RS

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