Fernanda Bastos: No sin nosotras

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de FIL/Twitter

O discurso literário como propriedade privada do homem branco está com os dias contados nas festas e feiras de literatura, como foi possível perceber na Flip 2019. Esse recado veio inclusive no ótimo desempenho de autoras, especialmente as negras, que emergem vigorosas após anos de visibilidade menor (menor que a dos homens, menor que das mulheres brancas). No mesmo mês em que Paraty foi mais uma vez convencida a admitir a diversidade, a velha faceta do Universal foi ancorar em outro porto. Na abertura da 24ª Feira Internacional do Livro de Lima (FIL), nove  autoridades integraram a mesa de honra, que era composta, entre outros, pelo presidente Martín Vizcarra e o prêmio Nobel de Literatura 2010, Mario Vargas Llosa, que foi o homenageado da edição.

A foto é eloquente: aparecem o ministro da Cultura, o presidente do Instituto Cervantes, o prefeito de Lima, o presidente da Câmara Peruana do Livro. Gestores e autoridades todos homens e brancos tendo como fundo a reprodução em desenho da multiartista peruana Victoria Santa Cruz (no mínimo, você certamente viu ela recitando Chamaram-me negra).

Essa cena foi o estopim para tornar públicas reclamações de falta de paridade de gênero na FIL. Como resultado, escritoras anunciaram que dariam mais visibilidade à literatura de outras mulheres durante suas participações no evento. Houve ainda quem não tivesse tanta paciência para o reformismo. A poeta Victoria Guerrero cancelou sua ida. “A literatura peruana não pode seguir sendo esse lugar onde se usam mulheres como enfeite ou cota”, disse Guerrero ao veículo independente Mano Alzada.

Valeria Román Marroquín publicou, em seu Facebook, uma manifestação com 3 pontos. No primeiro, ela destaca que se deve respeitar a decisão de escritoras que escolheram se retirar do evento e enfatiza que a saída de referências como Guerrero redimensionam a função das que permanecem: “Temos uma responsabilidade de nos manifestarmos, de não deixar de falar no assunto, inclusive de incomodar nesses espaços”. No ponto 2, ela enfatiza que deixar de participar não é um gesto menor assim como a formação da abertura não pode ser minimizada. E lembra de outro episódio envolvendo a FIL e o escritor Gustavo Faverón. Desde 2016, Faverón é impelido a responder a várias mulheres que o denunciam de assédio por meio de redes sociais. A cobrança feminista seguiu-o até a FIL 2018, quando um grupo de mulheres interrompeu uma apresentação que Faverón fazia. Cerca de dez protestaram com cartazes como “Assediadores não são aplaudidos, lhe viramos as costas” e “Por uma FIL livre de assediadores”. Conduzidas por seguranças, elas deixaram a FIL, mas suas mensagens ficaram.

A Câmara Peruana do Livro chamou o episódio envolvendo a FIL 2019 de mal estar e, por meio de nota, afirmou que os participantes da abertura não foram escolhidos por conta de seu gênero e que a formação da mesa refletia o perfil das chefias nos órgãos convidados. Acrescentou que se arrepende do descuido, mas que vem atuando para normalizar a presença de mulheres na programação: “A FIL faz grandes esforços para tornar visíveis as escritoras e mulheres que participam do mundo dos livros”.

A controvérsia envolvendo a FIL 2019 e a dificuldade de os organizadores assumirem o problema estrutural atestam novamente que a literatura está longe de ser um espaço neutro e distante das reivindicações do dia a dia. No Peru, no Brasil (e logicamente aqui no microcosmo Porto Alegre), fotos como essas são normalizadas em eventos literários, assim como a autoridade primordial do homem branco tenta ser protegida. Com o movimento #NoSiNosotras na FIL e fora dela, as peruanas nos motivam a enfrentar a discussão sobre representatividade e política de presença, entendida não como um luxo entre nossas atribuições como cidadãos e artistas, mas como uma necessidade básica, assim como de água (a menos que você se represente como O ou A Universal, pois nesse caso dificilmente terá essa sede).

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

Literatura RS

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