Fernanda Bastos: A religião Toni Morrison

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Sempre fui de frequentar bibliotecas, sobretudo quando não tinha uma. E, por conta dessa obsessão, algumas das minhas memórias mais afetuosas têm relação com essa espécie de templo. Quando comecei o curso de Letras, sem dinheiro e sem muita informação especializada, dei a partida na minha formação em literatura negra com um livro chamado Jazz. Devo aos sebos ter conhecido a obra de James Baldwin. E devo à biblioteca que frequentava ter conhecido Toni Morrison.

A leitura foi semelhante ao descobrimento de um novo mundo. Era a primeira vez que eu via o meu universo retratado na literatura. Um planeta em que a cor de sua pele era notada e estabelecia muitos parâmetros na relação com o outro, que influenciava sobre o lugar onde você morava e o tipo de tratamento que as pessoas teriam com você na rua, no trabalho e até mesmo em casa. Mas não era só isso, a todo momento Morisson mostrava a possibilidade de um evento trágico caminhar com o milagre da existência em meio à precariedade da vida nas cidades. Reflexões filosóficas existiam no diálogo ligeiro, no ritmo do jazz. Demorei para entender o significado daquela obra, que, por ser tão densa, demorava a sair de mim e talvez nunca me deixasse completamente.

Aquela experiência se repetiu na leitura de outras obras de Morrison, como Amada, que eu precisei reler algumas vezes até me acomodar naquela narrativa de despedaços. As experiências tão embrenhadas no horror me encantavam quase tanto quanto sua linguagem, fresca, sensual, fatídica.

Bem mais tarde, entendi que a procura da sabedoria pautou a trajetória dessa escritora, que percebeu a potência de relatos de mulheres e crianças negras, principais alvos de abuso e violência. Assim como os estudos de interseccionalidade nos ajudaram a compreender como direitos são mais facilmente arrancados de mulheres negras, a escritura de Toni Morrison deu sua contribuição a esse campo na literatura.

Sua percepção da arte ficava evidente na leitura de sua obra, que era política e propunha uma política da memória e da representatividade sem que se precisasse nomear esses compromissos; sua obra sempre falou por si. Basta acompanhar uma de suas entrevistas para entender a extensão do seu engajamento com a arte. Explicou certa vez: “Certos tipos de traumas visitados nos povos são tão profundos, tão cruéis, que ao contrário do dinheiro, ao contrário da vingança, ao contrário da justiça, dos direitos ou da boa vontade dos outros, só os escritores podem traduzir esse trauma e transformar a tristeza em sentido, aguçando a imaginação moral. A vida e o trabalho de um escritor não são um presente para a humanidade; eles são sua necessidade”.

No século XX, em que se cogitou que o trauma era um impeditivo para o discurso, Morrison demonstrou que era necessária. Ela antropofagizou a tradição, captou o elemento transcendente da arte e reconfigurou o papel da literatura como relato do testemunho do mundo e de criação de disruptura da realidade. Não por acaso impactou em trajetórias tão diversas como as de Conceição Evaristo, Roxane Gay, Ayòbámi Adébáyò, Barack Obama e Kara Walker.

Com a morte, os sujeitos costumam passar por um processo de consagração diferente do sucesso comercial e de crítica e que ocasiona o problema do esquecimento. É importante, nesse sentido, pontuar que Morrison foi popular, sobretudo junto à comunidade negra dos EUA, mas nunca foi unanimidade. Após o lançamento de Amada, sua falta de popularidade junto ao meio branco especializado culminou na campanha protagonizada por 48 escritores e críticos negros (incluindo Alice Walker, Maya Angelou, Amiri Baraka e June Jordan). Esses visionários (ou seriam os verdadeiros especialistas?) perceberam desde cedo o talento necessário de Morrison, que foi posteriormente ratificado com um Nobel. Por ser excepcional, ela garantiu seu lugar na política de memória da experiência negra. Graças a sua generosidade e engajamento, além da obra, resta a lição de que o espaço da literatura é o do testemunho do mundo não só como ele é mas – ainda bem – de como deveria ser, sobretudo para pessoas atingidas por traumas coletivos e múltiplos sistemas de opressão.

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Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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Literatura RS

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