Luiz Maurício Azevedo: Nossa fauna brasileira

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

.

Se me perguntassem o que é o meio literário brasileiro, eu diria: melhor que a ficção:

O livreiro – Seu estabelecimento é resultado de um investimento dos pais, que, desesperados com seu rumo errante, sugeriram uma série de negócios. A primeira opção era abrir um bar, mas uma palestra no SEBRAE convenceu o livreiro jovem da necessidade de optar por um modelo de negócios que realmente conhecesse. O negócio vai bem, deve dar lucro dentro de 390 meses. Ele acredita que a crise do mercado editorial é questão de gestão. Ultimamente tem pensado na possibilidade de instalar uma mini-cervejaria nos fundos da livraria.

O autor cansado – Está preocupado com o “iminente fim das liberdades individuais”. Ele considera o Governo Bolsonaro e o politicamente correto as piores ameaças desde a ditadura Militar. É fã de Justin Trudeau, Agualusa e Mia Couto. Em 2016, enviou um e-mail para a organização do Seminário Fazendo Gênero, reclamando do sectarismo das mesas-redondas.

A livreira – A livraria faz parte de um projeto político. Em algum momento, já pensou transformá-la em uma biblioteca, um centro de leitura ou mesmo um centro cultural, mas não encontrou investidores que viabilizassem o projeto. Recomenda livros de editoras independentes porque acredita no papel curador dos pequenos empreendimentos.

O mediador de leitura – Considera que a literatura transforma os seres humanos. Não gosta da polêmica em torno de Monteiro Lobato. Sobre o tema, recentemente compartilhou a opinião de uma ex-escritora: “O melhor caminho é sempre o do equilíbrio. Há problemas no texto? Sim, muito provavelmente; é preciso, então, adaptar essas obras aos novos tempos, mas nunca censurá-las.” Mês passado recomendou à direção de sua escola a compra de 150 exemplares de Narizinho – a menina mais querida do Brasil, de Pedro Bandeira.

O distribuidor de livros – Não responde a e-mails. Faliu há oito meses, mas continua recebendo mercadoria para venda em consignação. Ele planeja seminários sobre a produção editorial brasileira e faz campanha pela criação de uma agência nacional do livro, cujo objetivo seria fomentar a leitura mediante políticas de incentivo às editoras brasileiras. Votou em Ciro Gomes no primeiro turno e em Jair Bolsonaro no segundo. “Qualquer coisa, disse na época, é melhor que o PT”. Atualmente, lamenta “o rumo que as coisas tomaram”. E vê o Brasil “mergulhado em uma crise moral e econômica sem precedentes”.

O professor universitário – Tem entre 34 e 90 anos. Durante as seleções de mestrado e doutorado, dá preferência às candidatas brancas, porque acredita poder ensinar a elas o caminho de uma carreira acadêmica profícua. Gosta de ser identificado como um pós-marxista, embora nunca tenha, de fato, tido qualquer filiação materialista. Prefere Keynes a Marx. Votou no PT em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014 e 2018. Não acha que Lula é inocente, mas considera que é imoral culpá-lo com “tantos vilões reais à solta”. Compra muitos livros, mas lê pouco, porque “a sanha produtivista da CAPES não permite”. Ele não sabe quem é Chimamanda Ngozi Adichie. Ele nunca leu Toni Morrison, mas tem muito respeito por essa “literatura étnica”. É a favor de cotas sociais, mas não de cotas raciais, que seria “uma importação do modelo americano, que não leva em conta nossa história complexa de miscigenação racial”. Não responde a e-mails com pedidos de orientação.

O porco capitalista – É o leitor sempre ávido a pagar R$ 19,99 por uma obra que normalmente custaria R$ 89,99. No seu carrinho de compras está a nova Air Fryer, um moedor de café Cadence e um exemplar de Totem e Tabu.

A professora universitária – Passou em primeiro lugar no concurso docente para professora adjunta, no começo da década, obtendo notas máximas dos três avaliadores. Era pupila de uma professora titular, na mesma instituição. Comparado a seus pares, ela tem a pior rotina de trabalho: participa de reuniões de conselhos diversos, preenche formulários variados e atende a compromissos administrativos cujo propósito não entende. Ultimamente, tem utilizado muito os adjetivos “fafkiano” e “desidratado”. Em seu Lattes, se diz contra o golpe e particularmente interessada nos temas: protagonismo feminino, literaturas periféricas e autoria feminina. Ela é fã de Conceição Evaristo e Jeferson Tenório, aos quais atribui a autoria de Pontuá Vivêncio e O Beijo no Muro.

O crítico – Não vejo motivo para falar desse senhor.

.

Conteúdo disponibilizado antecipadamente para apoiadores e assinantes da Central de Acolhimento para Escritores. Faça parte dessa rede!

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel.


.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s