Fernanda Bastos: O fetiche da homenagem

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Quanto maior a visibilidade da distinção, maior parece ser a sua vocação para a polêmica – vide a recente controvérsia envolvendo a FLIP e sua escolha pela tremenda poeta Elisabeth Bishop. O que considero curioso é que quem reclama não deseja acabar com esse tipo de diferenciação que vêm de prêmios simbólicos, em dinheiro ou homenagens. Quem geralmente critica a distribuição de prêmios não é contra o prêmio específico ou a ideologia de premiação, mas contra os premiados daquele momento específico. Conforme essa linha de pensamento, é necessário e até mesmo positivo passar pela experiência traumática da separação do joio do trigo; não seria caso de distribuir indiscriminadamente honrarias ou fazer a democratização das homenagens, mas substituir aquele premiado/homenageado específico.

É verdade que, em geral, não há consenso sobre uma distinção — a exceção vem do júri, que, por convicção, vantagem financeira ou relação de camaradagem, está satisfeito com o resultado. No entanto, em tempos de visibilidade virtual, o descontentamento pode variar de discreto a ruidoso com mais facilidade, por meio de estratégias que também podem se diversificar na forma, de respeitosas a intransigentes. Com a distinção, parece se estabelecer uma relação de desejo profunda, que mobiliza aqueles que protestam em prol de outro resultado que diga sobre o seu talento/gosto.

As razões para a rejeição são baseadas em condutas morais e posturas políticas: “apoiou a ditadura”, “pregou que empregadas domésticas fossem amansadas”, “defendeu Pinochet”, “amou Heiddegger”. A crítica não costuma atingir instituições públicas ou órgãos conhecidos por distribuírem generosos cachês. O foco geralmente são instituições privadas e eventos que podemos simplesmente esvaziar não falando a respeito, mas dos quais gostamos de manter no debate.

A distinção literária é um tesouro, pois sugere aprovação legitimada por pares mais poderosos, mais letrados, mais ricos ou mais experientes. Aos escritores, garante o prestígio e, por vezes, bastante dinheiro. Aos leitores, garante a qualidade e a relevância da leitura e da idolatria. Ademais, a distinção literária também serve de escudo. Mesmo se não há sucesso comercial, acena para a resolução de uma suposta injustiça estética ou até mesmo serve como atestado da suposta dificuldade de as massas se identificarem com o artista-gênio (um verdadeiro gênio, Maiakóvski, foi acusado de ser “incompreensível para as massas” em um tempo e espaço em que isso não era nem um pouco sedutor).

Talvez mais do que o alvo, tenhamos de nos perguntar o que fazemos com o sentimento de insatisfação decorrente da distinção. Se não há comportamento exemplar, por outro lado há limites de aceitabilidade para variados comportamentos do outro. Muitos críticos do homenageado de hoje esquecem do esforço que empreendem para pregar perdão a instituições que apoiaram ou ainda apoiam líderes e políticas que repudiamos também no presente. Esse esforço de generosidade é sugerido para autores de textos racistas, misóginos, LGBTfóbicos, elitistas, pois estes seriam vítimas do seu tempo. A polêmica sobre o julgamento da biografia nas homenagens torna-se uma boa oportunidade de discutirmos o peso das escolhas de vida de escritoras e escritores (todos, não só os homenageados, mas também os canônicos e, por que não, os vivinhos da silva). Interessa pensar seus engajamentos e, sobretudo, como nós perdoamos algumas falhas e posturas em detrimento de outras identidades construídas conforme nosso próprio engajamento e leitura de mundo.

Não cogitamos que alguém perderá homenagens porque escreveu um prefácio defendendo a leitura de texto racista na íntegra para crianças, ou porque atacou a reivindicação de minorias pelo lugar de fala, ou porque abominou a tarefa do leitor sensível, ou porque posou sorrindo e declarando amizade em uma foto de jornal ao lado de uma escritora que se enuncia racista. Amanhã, no entanto, essas atitudes poderão ser condenadas. Para quem se pauta pelas distinções, é difícil saber quantos se manterão de pé diante do júri do futuro. Mas qual é o efeito do julgamento sobre quem está julgando hoje? Que tipo de vilão decidimos atacar e diante de qual nos calamos? Frente à injustiça, que tipo de ação tomamos além de reclamar? “Definições pertencem aos definidores — não aos definidos”, enuncia a narradora de Amada, de Toni Morrison, em um momento de extrema lucidez de sua obra, uma autoconsciência que há muito parece nos faltar.

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Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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Uma resposta para “Fernanda Bastos: O fetiche da homenagem

  1. O critério de distinção, pelo menos do ponto de vista político, normalmente é definido pelo regime no qual nos encontramos. Há divergência se ainda estamos em uma democracia, contudo se for verdade que estamos, o critério de distinção deve se pautar numa perspectiva da igualdade. Nesse sentido, o caráter normativo dessa igualdade deveria balizar todas as instituições. Por fim, o policiamento por mais igualdade parece ser inevitável, atingindo, inclusive, os escritores. Gostei bastante do teu texto.

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