Fernanda Bastos: Fantasias do carnaval

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Lima Barreto escreveu que “todos nós vivemos para o carnaval”. O autor carioca acreditava que a festa nos possibilitava fugir de uma realidade política rígida e normatizadora. “E então ele esquece tudo: a Pátria, a família, a humanidade. Delicioso esquecimento!… Esquece e vende, dá, prodigaliza alegria durante dias seguidos”.

Em Restos de Carnaval, Clarice Lispector escreve sobre a agitação da festa brasileira indefectível. As memórias retrocedem ao tempo de menina em Recife e seu descobrimento de que o carnaval lhe permite acessar um prazer até então secreto. Em meio ao adoecimento da mãe, uma menina recifense se prepara para o primeiro carnaval da infância com o desejo de ser reconhecida. Fantasiada, ela obtém a chave para o prazer autorizado do carnaval e a forma como o reconhecimento do outro proporciona uma nova identidade, longe da interdição e da doença.

O prazer também mobiliza os sujeitos carnavalescos do conto O bebê da tarlatana rosa, de João do Rio. O “mar alto da depravação”, enunciado pelo narrador, supõe a entrega absoluta e a desmedida das consequências. Mesmo situações vexatórias e nauseantes podem, posteriormente, serem resumidas a aventuras como nos ensina o barão Belfort.

A fantasia possibilita que o sujeito busque uma satisfação em substituição à realidade que difere do seu desejo, caracterizando um amoldamento, mas também pode facilitar a permanência em uma zona de satisfação com a ficção, em uma fuga da realidade que acomoda. Fuga do cotidiano, a fantasia é, assim, uma chave para a porta de liberdade do desejo.

Usada como representação, também pode ser uma ferramenta de ofensiva, quando o desejo é controlar o outro, retirando-o do plano da realidade concreta e encenando-o no plano do desejo de ser outra coisa, sobretudo o que já não é ou sequer foi, projetando sua representação. No carnaval, se exerce uma espécie de antropofagia, na qual devoramos a força de uma outra identidade. O outro é o vencido na batalha cultural do dia a dia. Só para contrariar, no carnaval, o humilhado pede passagem e ressurge como alvo de humilhações ou de homenagens, dispositivos do poder que aciona.

De fato, as homenagens existem, basta lembrarmos como a Mangueira, nas festividades do Rio de Janeiro em 2019, honrou Marielle Franco, vereadora assassinada em 14 de março de 2018. Para tanto, não achou necessário vestir-se como Marielle na tentativa de revivê-la. A opção foi elevar seu rosto sobre uma multidão que observou o movimento de bandeiras e a forma como ela, junto com Carolina Maria de Jesus, e outros heróis brasileiros nos lembravam a força de seus corpos e a injustiça de suas vidas e mortes.

Unidos culturalmente na festa e separados no dia a dia. E lá vamos nós entre a realidade que queremos esquecer e a ficção nua do mundo que carnavalizamos. Entre capitães estúpidos e ordens indecentes, entre obscenidades e fantasias, homenagens e liberdades, censuras e desejos, lágrimas e esquecimentos.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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