Luiz Maurício Azevedo: Flunitrazepam

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Ele é homem. 

“Fui criado por mulheres fortes. Quatro. Três tias e uma mãe solteira, brother. Tinha dentista, professora, advogada, mas tudo mulher de fibra, sabe?”

Homens, ele me garantiu, foram raros naquela infância. Homens sumiam.

O pai dele sumiu.

“Fugir é uma coisa masculina, né. Mas eu não tenho disso, não. Tem coisa que eu não peguei. Nem tudo é preto no branco. Eu, por exemplo, tenho pau, barba crespa, próstata, o bagulho do XY lá, sou um cara fascinado por Formula 1, e quando tenho virose tenho a nítida sensação de que vou morrer. Sou homem, então? Sou. Mas sou muito mulher também. Vamos dizer assim: minha cabeça é de homem, mas meu coração é de mulher. Eu sou metade mulher por dentro, meu, por isso não entendo essa acusação. Vou até votar na Manuela.”

Em 1998, o jornalista favorito dele disse que ballet era coisa de veado. Ontem esse mesmo jornalista foi acusado de machismo. Na ânsia em defendê-lo, Daniel acabou se envolvendo em uma discussão no whatsapp. Houve uma chuva de denúncias e agora ele tá aqui na minha frente. 

“As mulheres adoram chamar os homens de machistas. É claro que machismo existe, mas na maioria das vezes quando uma mulher diz que um troço é machismo ela tá mentindo. Nós, homens, sofremos demais da conta. Nossa. Hoje o homem é que é a vítima. Esses movimentos dessas lésbicas aí… pode botar fé, tudo é para inverter a ordem da coisa. As mulheres querem oprimir os homens. Eu acredito na igualdade, não no feminismo. Tudo para elas agora é assédio. Não se pode mais fazer uma brincadeira, fazer um elogio. Parece que a gente tá na ditadura, cara. Pra você vê, a irmã da guria que tá fazendo a acusação contra mim bateu o carro mês passado. O marido brincou com ela, dizendo que ela devia tá passando batom na hora do acidente, por isso não teria prestado atenção ao trânsito. Ela ficou furiosa, argumentou que bateram nela; que quem bate atrás é que tem culpa; que o cara tava alcoolizado, que isso, que aquilo. Não entro no mérito. A questão aqui é a reação dela. O marido era o inimigo? Que tipo de feminismo é esse que não permite mais o humor entre marido e mulher? Tudo errado, meu. Errei? Errei. Não devia ter ficado com a mina louca? Talvez. Mas se for todo mundo ficar regulando o que vai fazer, isso aqui vai virar um cemitério, um monte de zumbi comandado por essas modinha vegana.”

Ele vai ser indiciado com base na lei 12.737, que é de crimes cibernéticos, e no artigo 213, que é o que trata de estupro.

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel.


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