Fernanda Bastos: O vírus

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Ouvi um integrante do governo garantir que a melhor vacina contra o coronavírus é avançar na agenda de reformas e aumentar a produtividade. Lavei as mãos e o rosto. Era domingo e havia ido ao supermercado, porque não tinha mais papel higiênico. Sabia das notícias sobre os estoques, mas, de qualquer forma, fiquei impactada ao ver as prateleiras quase sem os rolos, mais vazias do que as de produtos comestíveis, como farinha e chocolate. Lembrei do sujeito texano que comprou 17 mil garrafas de desinfetante para as mãos — um prodígio da economia do caos, que para o seu azar foi descoberto e banido das lojas virtuais, impedido de vender sua mercadoria sobretaxada.

Depois da entrevista com o secretário de Economia, que falou em reformas administrativas como vacina, não saí mais. Estava nublado mas não chovia, clima de prenúncio de uma chuva pesada. Fazia sol e eu havia achado a rua bastante vazia pela manhã, mas soube que as pessoas mantiveram feiras e um bloco de carnaval, que festejou bastante. Achei incômodo o barulho.

Logo meus olhos se soltaram da lembrança e se prenderam nas imagens de uma população idosa, um chamado grupo de risco, que fazia protesto contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Uma das manifestantes segurava uma faixa escrita a mão: “Desculpa, coronavírus, mas estamos mudando o Brasil”. Foi inevitável fazer a comparação com o 14M, que aconteceria no sábado, mas foi suspenso por precaução. Com 731 dias sem uma reposta para os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, gostaria de perguntar à manifestante o que de fato está mudando e se ela me emprestaria seus olhos.

A COVID-19 trouxe temor, solidariedade, abundância de informação e negacionismo. Tudo junto ou cada parte separada. Li manifestações de ódio contra pessoas que estavam na Europa ou que nasceram lá. Supostamente deveríamos torcer contra a saúde dessas pessoas porque possuem mais dinheiro que nós e que a maior parte da população.

O ódio aos vetores foi acentuado. Acusaram as populações ricas de jogarem essa doença para cima de nós, os países pobres, como uma extensão do colonialismo. Falaram também em um complô da China. Mencionaram um castigo divino ou uma revolta da natureza, que faria a sua limpeza social, aos moldes de qualquer ideologia fascista (a palavra brasileira de 2019). Surgiram também as reportagens sobre a precariedade da situação das comunidades sem saneamento e dos presídios. Passamos a adotar o termo “testou positivo” no lugar de “deu positivo”.

Os amantes da leitura se apressaram para fazer listas de livros para maquiar a quarentena de hobby. Finalmente, a atividade individual por excelência ganha predileção. Ensaio sobre a cegueira é um dos mais citados, por óbvio. Entro em uma digressão sobre as maratonas que faria: Zadie Smith, Ana Martins Marques, George Orwell, Nelson Rodrigues, Ledusha, James Baldwin.

No isolamento, o vetor mais famoso fala em histeria e em exagero. As estatísticas e as projeções científicas são duras. Mas temos a vacina. Quem pode decidir melhor para a população do que o presidente e sua equipe (que soma, até esse momento, 14 enfermos)?

Amanhã vou trabalhar. Mais um dia normal.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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