Luiz Maurício Azevedo: 25 maneiras de se recuperar da morte

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

A tristeza não é que exista a administração Bolsonaro, e que seus parentes (incluindo a querida tia Ricota, que fazia ambrosia e que deu a você um Trovão Azul no natal de 1989) sejam indiferentes às declarações do presidente sobre negros, sobre soropositivos, sobre gays, sobre mulheres, sobre a Amazônia, sobre os livros didáticos, sobre o céu e o inferno… o mau é que isso desperta em você uma suspeita dolorosa: a de que eles são capazes de se comportar como se nada tivesse acontecido

Você começa a se perguntar o que mais eles fingiram não ver? Talvez um estupro. Talvez um homicídio. Talvez o vô, que tinha tantos imóveis, tenha se aliado a um sócio corrupto. Talvez ele tenha espancado moradores para convencê-los a sair daquelas casas. Talvez ele tenha subornado o pessoal do Cartório para poder registrar seus imóveis roubados. Talvez sua família não tema o retorno da Ditadura porque foi justamente durante a Ditadura que seu tio – que hoje tem uma construtora – ganhou seus primeiros clientes, todos indicados por “gente do governo”, como diz sua mãe. Eles, os seus parentes, sempre tiveram essa habilidade. Eles, os seus parentes, olham para o lado oposto quando a paisagem é urgente. Eles, os seus parentes, não dão a mínima para tudo aquilo que não se pareça com eles. Você, que gosta de Jonathan Franzen, que não perde um podcast da NPR, não é exatamente da família. Você é uma coisa que nasceu deles, mas que cresceu e apodreceu, possivelmente infectado pelo vírus do marxismo cultural.

Mas agora, observe como, com a crise do covid-19, você pode deixar tudo isso para trás. Antes você só se preocupava com o que Jair Bolsonaro dizia. Agora você finalmente pode se libertar da armadilha. O plano era largar o governo em cima de você. Durante anos sua tia viveu com o PT nas costas. Tudo para ela era o PT. As deficiências de Lula. O ritmo dos movimentos cardíacos de Lula. As rugas de Lula. O itinerário matinal de Lula. Lula era o mundo dela. O que a tia Ricota mais queria era quando votou em Bolsonaro era que você ocupasse o lugar dela, que você tivesse as rugas, a artrose, a lentidão, a grossura da língua, o rancor de quem viveu e está convencida de que perdeu tudo o que importava.

A única maneira de você combater Jair Bolsonaro é combatendo a dinâmica que o criou. Não responda. Propor é diferente de reagir. Deixe que a tia Ricota suma na textura áspera das paredes sempre escuras. Deixe que ela morra sem você. Seu mundo é maior. Seu diapasão é mais robusto. Tome para si as recompensas de ser quem você é. Não se gaste à toa. Fique em casa. Não se aliste para ser os mortos que eles estão dispostos a desprezar. Enquanto isso, enquanto a tia Ricota não some, há coisas que se pode fazer para sobreviver ao covid-19. Preparei uma lista. Sou organizado. Use-a com moderação e lave suas mãos.

1. Ouvir David Bowie
2. Assistir Antes do por-do-sol
3. Queimar Palo Santo
4. Ler os ensaios da Susan Sontag
5 Ouvir A Estética do Frio, do Vitor Ramil
6. Ouvir Kind of Blue, no começo da noite.
7. Reler Homem Invisível, de Ralph Ellison.
8. Cheirar o cabelo de quem você ama
9. Ler Os casos de amor de Nathaniel P, da Adele Waldman
10. Comer batatas com alecrim
11. Masturbar-se
12. Carregar o kindle
13. Reler A Invenção da Solidão, de Paul Auster
14. Ouvir John Lennon
15. Assistir Lavoura Arcaica
16. Cuidar das plantas
17. Olhar para si próprio
18. Ver fotos da sua infância
19. Pensar no mar
20. Carregar o kindle
21. Ouvir Etta James
22. Fazer um paper sobre o Graça Infinita, do David Foster Wallace
23. Tomar chá de pêssego com gelo picado.
24. Trepar
25. Começar a ler O Capital, de você-sabe-quem

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel.


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