Luiz Maurício Azevedo: Marco Zero

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

O ano era 1999. Eu comia xis três vezes por semana e tinha um Movistar, da Telefónica Celular. Fazia calor e eu caminhava pela Feira do Livro procurando duas coisas: Thomas Bernhard e um escritor negro vivo. Qualquer um. Eu não me importava com o gênero literário, contanto que fosse negro. Era o efeito Mia Couto. Passei meses pensando que Mia Couto era negro. Eu tinha certeza disso. Era a certeza da necessidade. Haver um autor negro, àquela altura, era uma garantia para mim, aluno negro do curso de Letras da PUCRS, em um período anterior às cotas. Eu procurava. Varria as bancas. Nada. Minha pergunta era clara, direta, doida e doída: “Oi. Vocês têm algum livro de escritor negro contemporâneo?” As reações dos livreiros eram as mais variadas: “É pra algum concurso?”, perguntava um. “Tu quer a capa do livro mais pretinha? Não entendi bem. Aqui o livro se divide por gênero literário, não tem essa bobagem de cor”; tangenciava o cínico do racismo editorial distraído. Era não atrás de não. Constrangimento chamando constrangimento. Mas eu tinha que seguir. Tem gente que cobra as coisas em dinheiro. Eu cobro em livro. Por isso, tenho quarenta anos e apenas R$ 0,48 na minha conta corrente.

Já eram quase sete da noite quando encontrei o que procurava. Puya. Edição de 1992. A atendente falou rapidamente quem era autor. Um tal Ronald Augusto. Eu perguntei: “mas é negro mesmo?” Ao que ela respondeu, didaticamente e sem nenhum traço de paternalismo: “Olha, eu não sei exatamente se o que ele escreve é a resposta ao que tu procura, mas te garanto que pra mim, pra ele e para todo o restante das pessoas, ele é negro. E um cara bem combativo intelectualmente.”

Fiquei bem feliz. Nunca tinha visto a cara dele. Depois daquele dia, passei a ver Ronald em todos os lugares: em um café na Joaquim Nabuco; em uma entrevista no Jornal do Almoço; em uma palestra sobre estética… Hoje recebi as provas da gráfica de O leitor desobediente, de Ronald Augusto. O livro sai pela Figura de Linguagem, onde ocupo o cargo de editor executivo, porque minha mulher, dona da editora, me ama.

Duas décadas se passaram desde que achei Ronald. Hoje não tenho mais um Movistar e substituí o xis por 30 mg de Lansoprazol. Minha biblioteca está finalmente cheia de contemporâneos negros, como Eliane Marques, Jeferson Tenório, Geni Guimarães, Allan da Rosa, Priscila Pasko, da Cidinha da Silva, da Conceição Evaristo, Ricardo Aleixo… porque nós somos aquilo que nos transforma. Agora já dá para encontrar na Praça da Alfândega a poesia operária do Marcelo Silva, a crítica anti-gentrificação de Taiasmin Ohmacht, a ancestralidade poética de Lilian Rocha, o erotismo de Ana dos Santos; e a urbanidade lírica de Marlon Pires. Cada vez mais há gente negra chegando, em um horizonte literário sem fim. É um bonito cenário, que ilumina as minhas memórias e me traz de volta a imagem dos negros que morreram na invisibilidade de outras praças. Por isso, agradeço imensamente àqueles que, como Ronald Augusto, ficaram em pé e nos trouxeram até aqui.

Sei que um dia a Feira do Livro de Porto Alegre será dirigida por um triunvirato formado por Sônia Zanchetta, Vitor Diel e Ana Paula Cecato; e que terá, finalmente, patronos e patronas afrodescendentes. E esses indivíduos, não importa quem sejam, representarão a todos nós negros e negras; e andarão por uma feira viva, cheia de gente, jacarandás e livros, em comunhão crítica com o que veio antes, fazendo acenos generosos ao que virá depois. E haverá talvez um outro aluno de Letras, a perguntar: “tem livro de autor negro?” E dessa vez os livreiros hão de responder: “com certeza”, porque finalmente teremos chegado  ao século XXI, ainda que a contragosto.

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Uma resposta para “Luiz Maurício Azevedo: Marco Zero

  1. Baita texto! Fiquei emocionada.
    Parabéns ao Luiz Maurício! Parabéns ao Ronald Augusto, por trilhar antes e sempre – e firme – esse caminho difícil.
    Parabéns, LRS!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s