Fernanda Bastos: Contra o racismo pero no mucho

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de Koshu Kunii

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Existe antirracismo no mercado editorial? Essa é a pergunta que eu não vi ser feita nas postagens sobre antirracismo e antifascismo que emergiram nesse início de mês, em resposta à mobilização negra nos EUA, por meio do movimento Black Lives Matter, que foi novamente visibilizado pelas mídias em todo o Ocidente após o assassinato de George Floyd.

Eu me faço essa pergunta há alguns anos, mas reforcei esses questionamentos quando, ao lado do Luiz Mauricio Azevedo, criei a Figura de Linguagem. Neste mês o aniversário de dois anos da editora não teve as comemorações que esperávamos, uma vez que a pandemia tornou 2020 um ano ainda mais difícil praticamente para o mercado editorial em geral, Mas, se somos verdadeiros ao afirmar que acreditamos em interseccionalidade e lugar de fala, por que não visibilizamos as dificuldades que editoras negras têm enfrentado desde antes desses dias?

Um tweet da Lee & Low Brooks sobre o mercado do livro infanto-juvenil chamou minha atenção recentemente, pois apresentava um levantamento que expunha profunda ausência de negros entre os profissionais do livro no segmento infanto-juvenil. Escritores negros respondiam somente por 5% da autoria das obras publicadas. Mas o percentual diminuía ainda mais entre agentes, vendedores, resenhistas, publicitários e analistas de marketing ligados ao livro – os negros não ultrapassavam 4%. O percentual era ainda mais baixo quando se tratava de edição, no qual o índice estaciona no 1%. Levantamentos como esse, ainda que direcionado para um setor específico e em outro país, não se afasta no que observamos na maioria das casas editoriais.

Diferentemente do que setores como a classe de docentes universitários, jornalistas e políticos se convencem, essa presença não representa que esses profissionais não existem ou que ainda precisam se mostrar à altura, mas que esse mercado os exclui violentamente, como todos os outros.

O percentual mínimo de negros no levantamento é pequeno até em um país no qual a população afrodescendente representa 12%. Aqui no Brasil, em que o mercado editorial é pequeno tal qual o público-leitor na proporção da população, não possuímos dados segregados como esse. Mas, observando o trabalho das editoras, é possível inferir que esse percentual, a exceção talvez dos autores, parece ser tão desigual quanto.

Ano passado, tive a oportunidade de ouvir, durante programação cultural da Biblioteca Mario de Andrade, em São Paulo, o depoimento de Maria Mazzarelo, que abordou seu papel de fruto estranho no mercado editorial brasileiro. Por criar uma editora voltada à cultura afro-brasileira antes da Lei 10.639, de 2003, Mazza não só foi pioneira como colocou a serviço da sociedade seus anos de trabalho em outras casas editoriais e a sofisticada formação em editoração na Universidade de Paris – XIII. Em 39 anos de trabalho, lançou narrativas do tamanho de Ponciá Vicêncio e Leite do Peito e uma infinidade de textos técnicos voltados à formação de uma geração que, por meio dessas obras, finalmente se veria nos livros. Naquele encontro, Vagner Amaro, editor da Malê, também estava presente e contou sobre seu brilhante trabalho na Malê, criada já nesse século.

Hoje, em meio ao confinamento e aos protestos que mobilizam, nos EUA, uma maioria negra às ruas por justiça por seus mortos e igualdade aos vivos, esse encontro ressurge como um tesouro. “Os brancos revisitam os seus clássicos, especialmente nos momentos de crise. As novas gerações de militantes negros sequer conhecem os nossos, pois não criamos meios de transmitir nosso patrimônio libertário”, escreveu Sueli Carneiro.

Levando em conta o desejo que pessoas brancas têm de tomar para si o trabalho de pessoas negras insurgentes, assumindo suas práticas sem dar-lhes crédito e negando seu passado de contribuição ao status quo, é possível que daqui a alguns anos, quando todas as editoras brancas tenham equipes mais diversas, o trabalho de patrimônio libertário de editoras negras e coletivos de publicação antirracistas pareça distante. Nessa hora é que deveremos nos manifestar lembrando do papel das editoras negras como parte do patrimônio libertário do nosso povo, um protesto em meio às tentativas de silenciamento e negação de nossa existência, tão ameaçadora ao mito de democracia racial brasileiro.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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