Fernanda Bastos: A tragédia do cancelamento

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de Marton Gosztonyi

.

Bastaram algumas semanas de protesto contra a violência da polícia e outras formas de perpetuação do racismo para que um grupo de progressistas tentasse retomar o turno de fala. Dessa vez, as reivindicações viraram pretexto para o debate sobre a chamada cultura do cancelamento. “Uma Carta sobre Justiça e Debate Aberto”, publicada na revista Harper’s, enfatiza as preocupações com a democracia de teóricos, escritores, professores e ativistas. Muitos deles são militantes da democracia como Mark Lilla e Noam Chomsky, que pesquisam e debatem publicamente o tema há anos.

Alguns signatários da carta, como Salman Rushdie, tem legitimidade para temer a censura e a perseguição política. No entanto, o texto não relata uma ameaça objetiva, que poderia caracterizar a publicação da carta como um alerta. Ao contrário, os cento e cinquenta signatários conseguiram lançar a carta em uma prestigiada publicação, ganhando visibilidade editorial em outras tantas.

Uma das assinaturas que chama a atenção pelo contexto é a de J. K. Rowling, que, recentemente, demonstrou, no Twitter, transfobia. Ela foi questionada, criticada e perdeu seguidores. No entanto, é difícil acompanhar o pensamento de quem lamenta ter sido cancelada quando a riqueza que Rowling conquistou com a venda de suas obras – e consequentes adaptações – não foi confiscada e suas obras permanecem na vitrine das livrarias do mundo todo. Portanto, do que, afinal, reclamam os signatários dessa carta e seus entusiastas? Eles parecem mais preocupados com os custos de desrespeitar pessoas desprestigiadas do que com as fraturas democráticas que mantém em condição de subalternia as pessoas que têm menos poder, menos dinheiro e menor status social.

É razoável compreender a preocupação de algumas pessoas quando certos protestos se erguem, demandando das instituições reformas e transformações que talvez não sejam favoráveis a quem há muito tempo participa delas. Afinal, se a polícia que persegue pessoas negras incomoda, amanhã a universidade – que, por impotência ou má-fé se mostra conivente com profissionais racistas – pode também ter suas rotinas e suas dinâmicas questionadas. Difícil é entender por que os produtores de cultura, que assinam o documento, aceitaram a falácia de que todo esse processo de acerto de contas vai deslindar em perda da liberdade de expressão. Ou em dano severo à vida social dos cancelados. Pessoalmente, não consigo nomear sequer uma pessoa que tenha perdido emprego e sido desconsiderada para os trabalhos que estava conduzindo por conta do cancelamento. Por outro lado, são vários os exemplos de sujeitos que foram punidos por se envolverem em movimentos públicos de busca por direitos e, sobretudo, de rompimento com estruturas de produção de desigualdades. Um dos casos mais famosos é o de Colin Kaepernick (mas ninguém fala dele como um cancelado, afinal, a comunidade que ele defendeu permanece lhe dando legitimidade, embora isso não garanta ao jogador vaga em uma das equipes da NFL).

O oportunismo do texto é se valer dos protestos encabeçados pelo movimento Black Lives Matter, que são chamados genericamente de “poderosos protestos por justiça racial e social” a um suposto movimento nocivo e potencialmente descontrolado de autoritarismo e intolerância crescentes.

Quantos de nós, que somos chamados de grupos identitários, não ouvimos por aí que a real ameaça à democracia (ou à arte) é o presidente e não aquela machista/racista/lgbtfóbica que denunciamos? Não que os presidentes autoritários não mereçam receber nosso questionamento diário, mas o fato de estarmos descontentes com suas ações não nos impede de lidar com outros problemas tão urgentes quanto o avanço da extrema direita. São igualmente urgentes o racismo, a transfobia e o machismo, mesmo quando habitam o útero da esquerda.

Por que o turno de fala do subalterno parece ser, para alguns, o fim da democracia? Talvez, no inconsciente, os implicados nessa carta não se relacionem bem com os protestos antirracistas. É desconcertante que, justamente quando pessoas que costumavam ser canceladas por suas características culturais assumam as estratégias de mobilização nas ruas e consigam, muitas vezes, ocupar os espaços antes interditados para elas, parte da intelectualidade progressista se levante para interromper o processo de indagação histórica. As estátuas anacrônicas dos dominadores estão caindo. Melhor não procurar proteção sob elas.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s