Luiz Maurício Azevedo: Enegrecer os peixes

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Há uma piada particularmente engraçada que o David Foster Wallace contou aos formandos do Kenyon College, em 2005, e que eu quero trazer de volta agora de forma evidentemente menos brilhante. É assim: “Há dois peixes jovens nadando pelo rio. De repente eles encontram um terceiro peixe, mais velho, que vinha na direção oposta; ele cumprimenta os dois, perguntando: ‘bom dia, rapazes, como está a água?’ Os dois mais jovens continuam nadando por um tempo, sem dizer nada, até que eles se entreolham e um pergunta para o outro: “mas que diabos é água”?

Rio todas as vezes que lembro disso. Sou obtuso. Ato contínuo, sempre acabo por me perguntar a mesma coisa: “esses peixes eram negros?” Sim, porque se esses peixes fossem negros, tudo seria diferente. Peixes negros podem nadar por aí exibindo sua ignorância sem riscos? Peixes claros são considerados mais bonitos que os escuros? A hierarquização hipotética do colorismo nos peixes é um efeito – nem de longe muito grave, reconheço – da racialização performática que constrange, deforma e danifica o pensamento de uma sociedade. David Foster Wallace, é claro, não tem nada a ver com isso, mas a pandemia impõe a mim uma aceitação ampla das relações insuspeitadas entre o que amo, o que quero salvar e o que simplesmente está armazenado no fundo de mim, como dado perdido. Eles chamam de falta do que fazer. Eu chamo de crônica. Perderemos todos. É a vida.

Um de meus textos literários prediletos, a Declaração de Independência dos Estados Unidos, foi produzida por indivíduos brancos, em 1776. Trata-se da junção esteticamente poderosa de algumas nobres aspirações administrativas com certas suposições fantasiosas. Textos assim não são mentiras. Eles são esboços de um imaginário em construção. Quando o leio, também penso em uma vida negra, uma liberdade negra e uma busca de felicidade igualmente negra. Não tenho como evitar. A universalização não está disponível para mim. Estou estragado para a neutralidade racial. A televisão, os corantes artificiais dos refrigerantes, o acesso à internet, o refluxo gastroesofágico e as reprises de Todo mundo odeia o Chris fizeram de mim um disco riscado, repetindo sempre o mesmo trecho racialmente lacrimoso. Nada a fazer. É tudo preto e branco.

De resto, declarações de independência, venham de onde vierem, são sempre gritos por liberdade em relação a alguma coisa e confissões de submissão em relação a uma outra. Por exemplo, quando declaro meu amor pelo gel de tomates verdes do D.O.M estou mantendo apertado o laço que me prende a muitas horas de trabalho árduo que me possibilitam aplacar meu desejo de consumir a arte de Alex Atala. São escravizações que posso suportar, e das quais talvez nem queira me livrar. Há outras piores. E essas envolvem sangue, sufocamento e dor. Não quero pensar nelas agora. Por ora, vou continuar lembrando dos peixes… os peixes negros de David Foster Wallace.

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s