Fernanda Bastos: Taxando à vontade

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Com frequência lembro de uma antiga reclamação de um leitor, que afirmou que o preço de determinado livro era caro como custasse um real a página. Apesar do absurdo da crença – os livros, em sua maioria, não são precificados somente pelo número de páginas que possuem – essa reclamação representa um incômodo frequente de quem tem o hábito de ler, que é a dificuldade de comprar obras na quantidade que se deseja. O livro, que é o produto mor da literatura, tem um preço orientado por demandas de mercado. As interferências em seu preço médio geralmente ocorrem por duas vias: a dos vendedores, que podem minorar seu valor conforme a procura e a oferta; e a ação de eventuais mecenas, que podem até comprar das editoras para distribuir gratuitamente uma grande quantidade de títulos. As obras passam por uma cadeia extensa, que começa na escritora ou escritor, mas envolvem agentes, editoras, capistas, revisores, tradutores, publicitárias, livreiras, assessoras de imprensa, distribuidores e livreiros. Há sempre uma penca de gente trabalhando para você ler o que parece ter surgido de um clique. Em resposta àqueles que reclamam do preço do livro costumamos dizer que não é, portanto, o preço do livro que é caro, mas a renda básica do povo brasileiro. Essa explicação é equivalente a dizer que não é o presidente que é execrável, mas o povo que o elegeu. Ou seja, uma verdade operacionalmente inútil para o debate porque se alimenta da tautologia. Nessa recente mobilização em torno da taxação do livro, até os defensores da arte pela arte vestiram a camisa do engajamento. Em geral, o setor tem mostrado desânimo, mesmo que sonhe com o apoio popular.

A crise que afeta os grandes massacra os independentes, que se esforçavam para democratizar a leitura independentemente de qual seja o rumo dos ventos econômicos. Daí a validade de uma campanha como a da Blooks para suportar o fechamento de suas lojas cheias de personalidade. Aqui em Porto Alegre, o bom exemplo vem da Baleia, da querida Nanni Rios, que tem se mantido inventiva, aproveitando o período para propor a criação de clubes de leitura especializados, apostando na força da curadoria.

Enquanto continuarmos repetindo que os livros devem ser baratos, vamos continuar reproduzindo o desconhecimento das pessoas sobre a engenharia de produção do mercado editorial. Quanto menor o negócio, mais difícil é para ele se estabelecer, distribuir e divulgar seus produtos. Por que, então, cobraremos justamente desses pequenos a obrigação de entregar produtos mais baratos?

Na Figura de Linguagem, casa editorial que chefio desde 2018, dedicada à produção intelectual negra, a pauta da democratização do livro está em nosso DNA. Nosso público-alvo é amplo, mas a criação de qualquer editora negra carrega com ela, a demanda de que suas obras devem chegar a toda gente. Em um país em que pessoas negras recebem salários mais baixos que as racializadas como brancas, esse é um desafio cotidiano. Estamos cientes de que não é remunerando menos os trabalhadores negros que vamos superar o racismo. Minha torcida é para que o debate sobre a taxação dos livros nos propicie a oportunidade de refletir sobre uma radical democratização da cultura livreira, que em um futuro próximo supere o peso de existir sob o controle de um governo anti-livros, eleito democraticamente.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” (Figura de Linguagem, 2018).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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