Minha rotina: Taiasmin Ohnmacht

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de acervo pessoal

“O barulho por si só não me atrapalha, o que mais me incomoda é um ambiente no qual sou solicitada com frequência, o que coloca a minha casa, lugar onde mais escrevo atualmente, como um local cheio de desafios para a escrita”. A realidade descrita por Taiasmin Ohnmacht é um padrão que se repete na vida de muitas escritoras, basta lançarmos um olhar cuidadoso sobre as demandas familiares e sociais que recaem sobre as mulheres e que são fruto dos papéis de gênero impostos por uma estrutura patriarcal. Dessa forma, a escritora põe-nos a pensar sobre as particularidades do pano de fundo da literatura que é produzida pelas mulheres que tentam equilibrar demandas de um trabalho diurno, da família e da produção literária.

Apoiadora de LRS, Taiasmin Ohnmacht é psicóloga clínica e psicanalista, pós-graduada em assessoria linguística e revisão textual (FAPA) e mestre em psicanálise: clínica e cultura (UFRGS). É autora do livro Ela Conta Ele Canta (Cidadela, 2016), em parceria com o poeta Carlos Alberto Soares, e da elogiada novela Visite o Decorado (Figura de Linguagem, 2019). Participou da organização do e-book Da Vida que Resiste – Vivências de Psicólogas(os) Entre a Ditadura e a Democracia (CRP/RS, 2014); foi relacionada no catálogo Intelectuais Negras Visíveis (Malê, 2017), lançado na FLIP, e integra a antologia Fake Fiction: contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade (Dublinense, 2020). Nesta nova edição da série Minha rotina, Taiasmin fala sobre escrita, leitura, passado, futuro e muito mais. Boa leitura!

Você tem uma rotina para escrita? Você escreve diariamente?
Escrever diariamente é um exercício. Não é algo que acontece naturalmente, procuro manter um caderno sempre por perto, onde anoto sonhos, pequenos textos, pensamentos, reflexões, no entanto nem sempre acontece esta escrita diária. Exceto quando estou envolvida em algum projeto já definido de narrativa, aí não só é diária como me ocupa várias horas por dia, a pressão de prazos funciona bem comigo, não sou disciplinada.

Você elabora algum planejamento para a produção dos seus livros?
As histórias que me proponho a contar, em geral surgem de algum traço efêmero: um resto de conversa, um incômodo indefinido, uma frase que achei bonita, o verso de uma música. Fico um tempo pensando se essas poucas coisas rendem uma história, a partir do momento em que acredito que vale a pena levar o projeto adiante, começo a escrever umas primeiras linhas descompromissadas, mas que importam para ir definindo a narração, principal personagem, conflito, a partir de então, há realmente um planejamento que admite elementos imprevistos, desde que se relacionem o objetivo central da narrativa.

Fotos: acervo pessoal

O que você faz para distrair-se do trabalho da escrita?
Até eu considerar que o texto está bem encaminhado, ou seja, que tenho alguma segurança sobre os caminhos que vou percorrer, não consigo pensar em outra coisa, fico obsessivamente escrevendo e reescrevendo frases e parágrafos, e mesmo sem o texto a minha frente, permaneço pensando em como dar soluções aos problemas que encontro no que me proponho a escrever. Passada essa fase, consigo espairecer, então vejo filmes, séries, escuto música, aproveito a família. Gosto muito de ler, mas na verdade, a leitura só contribui para eu relaxar se não estou envolvida com o processo de escrita; enquanto estou, prefiro filmes de terror como distração.

Qual plataforma ou editor de texto você utiliza para escrever? Por quê? E como organiza os arquivos?
Sempre usei o Word, sequer conheço outros aplicativos ou plataformas. Isso se considerarmos apenas as digitais, porque sou alguém que ainda escreve no papel, costumo intercalar a criação na tela do computador com a criação na folha de papel, no mesmo texto. Por isso os meus cadernos têm trechos de textos que já acabei, mas que só estão completos nos arquivos digitais. Transito entre uma e outra forma de escrever para superar os momentos em que não sei como contar ou descrever uma determinada cena, ou quando não sei que caminho a história tomará. Tenho uma pasta virtual na qual vou guardando tanto texto completos quanto incompletos, com isso consigo me organizar bem e acessar com facilidade o que preciso. Sei bem que nem todas as ideias ou textos se tornarão públicos, mas gosto de manter mesmo os incompletos porque podem conter trechos ou frases a serem aproveitadas em outros trabalhos ou inspiradoras de outros projetos.

O que uma escritora precisa para escrever?
Não posso falar de um modo generalizado, mas posso falar por mim e por algumas trocas que tenho tido com outras pessoas, escritoras ou não, mas que se veem ante o desafio de produzir um texto. É necessário esvaziar da invasora presença do outro, é contraditório dizer isso, porque a escrita é um diálogo interno, mas quanto mais estes interlocutores que carregamos forem esvaziados de formas e de nomes, melhor. Então quero dizer que o silêncio é importante, mas não apenas o silêncio do ambiente, e sim um certo silêncio interno, uma liberdade de se desprender de julgamentos e censuras prévias, uma liberdade de criação. Um ambiente tranquilo ajuda, mas alguns dos melhores contos que já escrevi foram criados em ambiente de trabalho, quando dividia sala com várias outras colegas. O barulho por si só não me atrapalha, o que mais me incomoda é um ambiente no qual sou solicitada com frequência, o que coloca a minha casa, lugar onde mais escrevo atualmente, como um local cheio de desafios para a escrita.

O que você está escrevendo no momento?
Recentemente, entre ano passado e este ano, estive envolvida com a escrita de dois contos para duas diferentes coletâneas, um recentemente publicado pela editora Dublinense, Fake Fiction: contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade, e o outro faz parte do projeto Contos de psicanálise, uma coletânea que será publicada até o final do ano pela editora Diadorim. Tenho alguns projetos de narrativas longas, duas distopias mas que ainda não estou certa de que irão prosperar; tenho lido várias histórias distópicas de diferentes autoras que me inspiram, mas ao mesmo tempo me fazem perguntar se o que tenho para escrever não é mais do mesmo. E tem um romance que me ocupa já há alguns anos, mais de cem páginas escritas, e que fui longe demais para não concluir, mas que ainda demanda muitos ajustes.

Quais autores são os seus preferidos e quais livros vocês recomenda?
Um autor do qual sou muito fã é Franz Kafka, sobretudo pelo modo como narra o absurdo de suas histórias sem espanto ou explicação. Consumi febrilmente Aghata Christie por anos, buscando o prazer de solucionar o crime antes do fim da narrativa, e pelo igual prazer de ser enganada pela narradora. Sou fã de terror, por isso li muito Stephen King, e ainda leio. No momento estou encantada com a escritora de ficção científica estadunidense Octavia Butler, li Kindred que recomendo fortemente, e estou lendo Despertar. Na minha casa, ficção científica sempre foi um gênero apreciado por toda a família, só a invisibilidade das escritoras e escritores negros para explicar que eu tenha conhecido a autora apenas ano passado.

Mas leio outros tipos de narrativa também, uma recente que me marcou foi Baratas, da escritora Scholastique Mukasonga, uma narrativa forte que vai entrelaçando drama vivido pela autora e sua família e ao mesmo tempo de um povo – a etnia Tutsi – em Ruanda. Controle, de Natália Borges Polesso, um livro que a gente acaba de ler, mas ele permanece um tempo com a gente. Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, traduz bem o que penso da literatura, como algo que está para além da representação, mas a própria possibilidade de criação de vidas possíveis, tanto para a autora quanto para nós, leitores, que a acompanhamos pelas ruas de São Paulo. A poesia tem lugar especial na minha vida, leio poemas desde a adolescência, posso dizer com segurança que o amor pela arte poética foi o melhor legado que recebi de minha trajetória escolar. Mas vou me permitir não citar os poetas consagrados, neste momento ando muito interessada em poetas contemporâneos e locais. Admiro a força de seus versos, a poesia performática, a criação poética que é também política. Mel e Dendê, de Fátima FariasGrito de Mar, de Mariam Pessah, e Pretessência, coletânea com poetas do Sopapo Poético, são alguns dos livros que recomendo

Visite o decorado
Taiasmin Ohnmacht
Novela
65 p.
14 x 21 cm
R$ 49,99
Figura de Linguagem

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