Julia Dantas e a construção de uma quarentena coletiva

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de Felipe Schroeder Franke

“Uma pessoa por dia. Um dia de cada vez. Diário da pandemia é uma tentativa de reunir relatos daqueles que estão atravessando os tempos de coronavírus em Porto Alegre. Com fragmentos de moradores espalhados por diferentes bairros, isolados em casa ou não, talvez seja possível construir um diário da cidade”. É assim que a escritora e editora Julia Dantas apresenta o projeto Diário da pandemia. Nascido no dia 18 de março de 2020, na semana em que a pandemia de Covid-19 tinha ceifado a vida de apenas quatro brasileiros, o blog segue ativo seis meses e 132 mil mortes depois.

Literatura RS buscou Julia para registrar suas impressões sobre o Diário da pandemia. Com mais de 170 depoimentos, o projeto compõe um mosaico de experiências que cria pontes afetivas entre pessoas distintas durante a maior crise de saúde pública que o Brasil já enfrentou, além de contar a História do tempo que atravessamos, de isolamento, divisas e dúvidas. Confira abaixo!

Por que você escolheu fazer desse diário uma construção coletiva?
Ele só poderia ser coletivo. Primeiro porque eu tinha o sonho que ele fosse uma espécie de diário da cidade (dentro das suas limitações), então quanto mais plural, melhor. Segundo porque eu sozinha jamais publicaria um diário, minha vida não é suficientemente interessante. Mas, sobretudo, eu queria tentar chegar a um desenho mais panorâmico. Que, no percurso dos depoimentos, a gente conseguisse enxergar o desenvolvimento da pandemia sobre uma população, e não apenas sobre um indivíduo.

Quais textos publicados até agora mais te impactaram e por quê?
Falando de modo muito pessoal, eu lembro muito do relato do Luciano Mattuella (dia 16) no qual ele escreveu “a profundeza íntima é mais ampla que a pandemia. É por onde sairemos disso tudo: por dentro”. Acho que esse é o momento em que todos nos confrontamos com nossa vida interior (ou a falta dela). Também lembro muito do texto da Joelma Terto (dia 43), que escreve “Alguns dias danço na sala. Noutros, me encolho, choro no sofá e janto paçoca”. Quando eu tenho um dia no qual não consigo fazer nada ou que as coisas não rendem, eu sento de noite e penso Bom, tudo bem, talvez até a Joelma, aquela mulher plena e incrível, esteja agora na casa dela jantando paçoca, então eu posso me permitir um dia fracassado e confiar que vai passar. E os que mais me abalaram devem ter sido o do Luís Felipe dos Santos (dia 66), que narra o seu dia e do filho João Pedro, em paralelo com o caso do menino João Pedro, assassinado pela polícia no Rio de Janeiro. É um soco no estômago, e um importante lembrete de que a pandemia colocou muita coisa em suspenso, mas o racismo continua operando com força no país. E depois o da Aurora (dia 74), que é o pseudônimo de uma menina que conta sobre estar numa casa onde sofre violências por parte de parentes. Agora ela já está numa situação mais segura, mas foi muito angustiante ser, de alguma forma, testemunha dessa violência doméstica, um problema que eu obviamente sei que existe, sei que aumentou durante a quarentena, mas que em geral não enxergo diretamente.

O que podemos identificar de comum entre os mais de 170 depoimentos publicados? E quem são as pessoas que contribuem com o blog?
Alguns traços emocionais aparecem com frequência: melancolia, medo, desesperança. Acho que essa é a tonalidade quando as pessoas refletem sobre o modo como o Brasil está lidando com a pandemia. Mas quando falam da vida pessoal, do seu mundinho dentro de casa, aparecem aspectos bem mais positivos, como revisão dos valores pessoais, bom humor (tem muita coisa engraçada no blog!), dedicação ao autoconhecimento e ao cuidado das pessoas próximas. Então, apesar dos esforços desse governo assassino pela destruição do país, eu em geral termino a leitura dos diários com a esperança de que são as pessoas comuns, nas suas pequenas ações, que vão salvar o nosso futuro.

Você coloca seu e-mail à disposição para quem quiser contribuir com o Diário da Pandemia. Houve algum texto que você recebeu e decidiu não publicar? Se sim, por quê?
Até agora, não. No começo, eu chamei amigos pra escrever, porque não sabia se o projeto ia parar em pé. Depois esses amigos chamaram amigos, eu deixei meu e-mail aberto a quem quisesse, e assim foi indo até chegar a pessoas que eu nem sei de onde vieram. Desde o início, eu tinha decidido que só não publicaria um texto se ele tivesse discurso de ódio ou algo assim. De resto, me parecia que era importante ser plural. Me preocupava a ideia de que aparecesse algum negacionista ou antivacina, mas essa preocupação se mostrou desnecessária. Tudo que chegou até mim está publicado. Não sei se isso se deve ao fato de que, no boca a boca, o blog acaba chegando em pessoas que pensam parecido, ou se realmente a maioria das pessoas se sensibiliza com o sofrimento alheio, tenta cuidar de si e do coletivo, enquanto que essa minoria violenta, irresponsável e egoísta talvez seja só isso mesmo: uma minoria barulhenta, mas uma minoria.

É possível traçar recortes de classe, gênero ou raça para agrupar as particularidades dos depoimentos publicados?
Tem um desafio nisso que é o fato de que há um punhado de depoimentos de pessoas que eu não conheço. Embora da maioria seja possível ver, pela foto de perfil, gênero e raça, eu nunca ordenei o material para poder analisar com cuidado. E também há pessoas sem foto de perfil: dessas, eu não sei nada mesmo, exceto a forma como elas viveram um determinado dia de 2020. Consigo lembrar de muitos depoimentos preocupados com o racismo, alguns que mencionam o aumento da violência de gênero, e muitos falam da desigualdade social. Mas tenho certeza de que o perfil predominante é gente branca de classe média, o que em parte é uma limitação minha (a minha falta de inserção em outros círculos) e em parte reproduz a desigualdade brasileira que exclui dos espaços públicos as pessoas que têm dificuldade de acesso à internet, que não possuem um computador ou celular pra escrever, e que até mesmo não se sentem à vontade para participar, seja porque “não sabem” escrever ou acham que não têm nada a dizer. Eu gostaria que houvesse mais representatividade de classe, mas isso exigiria um trabalho de reportagem de ir atrás e entrevistar gente, o que eu não tenho condições de fazer agora. Então, embora haja uma certa diversidade de raça, de gênero, de orientação sexual, de faixa etária, de profissões, eu não tenho dúvida de que é um diário bem restrito em termos de classe social.

No mês de março, vimos muitas pessoas, escritoras ou não, começarem a publicar seus diários para registrar sua experiência com a pandemia nas redes sociais. Hoje, meados de setembro, muitas dessas iniciativas foram abandonadas – embora a sua persista. Será que esse abandono é um sintoma de naturalização das mais de 130 mil mortes por covid-19 no Brasil?
Acho que, em alguns casos, sim. A gente de fato vive num país que sempre naturalizou a morte, inclusive as mortes violentas, então não surpreende que os brasileiros estejam de volta às praias e aos shoppings, sobretudo quando a posição oficial do governo sempre foi essa. Mas no caso das iniciativas de diário pessoais, eu imagino que entre em jogo a exaustão também. Haveria que perguntar a essas pessoas, é claro, mas fico imaginando que eu seria incapaz de ter passado os últimos cinco meses falando de mim todos os dias. Suponho que muita gente começou diários na ilusão de que o isolamento duraria pouco tempo. Eu tive essa ilusão: achei que o projeto ia durar uns dois meses. Achei que haveria um claro arco narrativo de instalação da pandemia, aumento de casos e de angústia, e depois começaríamos a voltar ao normal até passar. O fato de que não há arco, de que estamos há meses nesse estado de suspensão e anormalidade, dificulta até a o processo de narrar a vida. É difícil narrar um platô. E a gente sabe que os humanos têm dificuldade de dimensionar estatísticas, então que haja 130 mil mortos não nos causa uma sensação muito diferente de quando havia 65 mil mortos. Os números podem dobrar, e não somos capazes de sentir isso. Essa talvez seja a maior dificuldade de sensibilizar as pessoas e convencê-las a respeitarem o distanciamento social: para adotar as medidas de cuidado, dependemos totalmente da nossa racionalidade e não das emoções. E nós podemos ser os únicos animais racionais do planeta, mas ainda tomamos decisões com base na emoção e não no raciocínio.

Até quando você pretende manter o Diário da Pandemia?
Não sei. Ele acaba de entrar em uma nova fase que é não-diária. O número de relatos que chegam diminuiu, o que deve ser efeito dessa exaustão coletiva. Então vou publicando quando há o que publicar, o que não deixa de ser uma representação do cotidiano: antes era tudo diferente, tudo gerava reflexão; agora já estamos inseridos na nova rotina, em grande medida de saco cheio da nova rotina, e acho que quase todo mundo já encontrou sua maneira de viver sob a pandemia. Antes havia muito a aprender, e compartilhar experiências contribuía para pensar em como fazer as coisas. Agora que todo mundo teve que, aos trancos e barrancos, se adaptar, o diário deve naturalmente ir ficando cada vez menos necessário. Mas eu gostaria de manter registros até algum ponto de virada importante, seja a volta às aulas em Porto Alegre (o diário começa um dia antes do fechamento das escolas) seja a confirmação de uma vacina (tomara que seja isso).

> Visite o Diário da pandemia <

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