Poemas de herança e revolta com Fernanda Bastos

Edição: Vitor Diel sobre texto da assessoria
Arte: Giovani Urio

A sensível melhora na recepção da literatura produzida por mulheres negras no Brasil revela não apenas um movimento mercadológico digno de nota, como também um histórico acerto de contas com a inegável qualidade estética da produção feminina. Este reconhecimento, ainda que tardio, ainda que parco, possui raízes invisíveis, mas bastante robustas. Eu vou piorar, lançamento de Fernanda Bastos pela Figura de Linguagem, é uma realização linguística notável, marcada pela disposição obsessiva da autora para amplificar a força de sua voz poética. Aqui, a autora (que estreou na literatura há pouco mais de um ano com Dessa Cor e que já recebeu elogios de pesquisadoras como Sueli Carneiro, Julia Dias e Anamaria Santos), radicaliza a experiência poética de June Jordan, provando que já é possível contemplar a glória das folhas-filhas daquela árvore cujas raízes alguns insistem em sufocar.

“Com um discurso poético que contempla as pautas do feminismo negro, linguagem, ritmos e imagens são tessituras acerca da solidão da mulher negra. Essa poética vai além das relações afetivoamorosas, do aniquilamento histórico-cultural, da objetificação e da fetichização dos corpos negros, da não-liberdade, das dores e do cansaço advindos de inimigos que são sociais e políticos, da literatura enquanto espaço de privilégio branco-masculino-elitista, da escrita negro-feminina como processo ancestral, de criatividade e de poder, do racismo, do sexismo”, escreve Julia Dias sobre a obra.

Confira um poema abaixo.

Ali o samba acabou

O documentário mostra o tio compondo
invadido de Paz e Beleza no seu coração
cingido de mulheres iguais entre elas

mulheres que podem sorrir o fazem e devem

a vida do tio é privada
e as mulheres dele brancas

a família do tio embranqueceu
é seu direito acreditar na miscigenação
e no sítio do picapau amarelo

o presidente brasileiro defende a família
sem aborto e beijo alegre
nunca foi afinal assunto privado
a família e a mão do estado

Sobre a autora
Fernanda Bastos nasceu em Porto Alegre, em 1988. Ela é jornalista, colunista de LRS, tradutora e editora de livros. Atualmente, trabalha em sua dissertação de mestrado, que tem, como tema, o conceito de acontecimento público no caso Marielle Franco.

Eu vou piorar
Fernanda Bastos
99 p.
14 x 21 cm
R$ 70
Figura de Linguagem

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