Maiara Alvarez: A escrevivência do inventar, tempestar

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Maíne Alves Prates escreveu, no prefácio da obra Gotas de chuva encontram o mar, de Dóris Soares, que sonhar, assim como tempestar, é um verbo intransitivo. Não exige complemento — embora o aceite — pois guarda em si sentido completo. A língua brasileira, essa língua de dominação portuguesa, herda dela algumas regras, mas se reinventa conforme o seu uso já não está mais sujeito a império do outro lado do oceano, ora lá, ora cá.

Em uma poesia, ainda quando em prosa, que comprime os órgãos pelo imagético e estoura em uma bolsa de líquido amniótico, nossas primeiras águas, Dóris escreve algo que aceita, até pede um complemento: ela escreve a beleza.

Os pés pequeninos, com as sandálias em uma mão, segurando junto a mão do meu irmão ou da minha irmã, e na outra uma oferenda.

Tendemos a associar raízes com a terra, algo que não é, de longe, um erro. Tampouco, entretanto, é a única opção, ou de todo verdade, já que raiz se cria em contato com a água — terra sem água é deserto. Como mamíferos, nossa primeira raiz se forma com a nossa mãe, imersa em água.

As águas de Soares são as águas do mar que envolvem o cabelo de Iemanjá, que cuida, dá força, realiza sonhos. As águas das violentas tempestades que criam energia elétrica dentro de nós. As águas que impulsionam o corpo, por sua vez impulsionadas pela nossa força ao nadar. As águas das quais brotam a escrita.

Me permiti
E estou me permitindo fora,
hora,
Bora mundão a fora
Entre lágrimas e sorrisos,
brotam escritas…

Assim como Dóris oferece esse pequeno pedaço de si ao mundo, ofereço essa pequena visão a você, cheia de carinho, para que busque essa água que, tenho certeza, fará algo de beleza brotar. Uma pausa para ler o que a Dóris tem a contar, já que

Pausar
Também é movimentar.

Dóris Soares é natural de Uruguaiana, mulher, negra, mãe, esposa, ativista, Psicóloga, Atinuke. Gotas de chuva encontram o mar (Venas Abiertas, 2020) é sua primeira publicação solo. Dóris é uma das escritoras gaúchas constantes na coletânea Raízes: Resgate Ancestral (livro publicado no final de 2019, já resenhado aqui no Literatura RS), também pela Editora Popular Venas Abiertas.

Gotas de chuva encontram o mar
Poesia
Dórias Soares
84 p.
978-65-86656-13-8
15 x 10 cm
Editora Venas Abiertas

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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