Luiz Maurício Azevedo: Wolfsegg, Rio Grande do Sul

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Em recente texto, publicado aqui para o Literatura RS, falei da minha procura por um livro de Thomas Bernhard. Depois, porque a vida é uma correria, acabei não desenvolvendo. Retomo agora. Tratava-se do livro Extinção. Em 1999 havia, na minha avaliação, três coisas que eu não podia viver sem: a revista Bravo!, meu discman, e a revista Cult. Em alguma edição da Bravo! saíra a notícia do lançamento de um livro póstumo desse autor, nascido na Holanda, filho de mãe solteira, que odiava a terra onde crescera e ao mesmo tempo não conseguia evitar que suas declarações de ódio soassem como as mais genuínas declarações de amor. Era uma isca para mim. Eu me vi naquilo. Era eu. Embora a foto de divulgação parecesse a uma imagem do Craig T. Nelson, eu sentia o de te fabula narratur comendo minhas entranhas. Era a tal universalidade real da literatura – não aquela que sugere que não temos cor, identidade de gênero, CEP – mas aquela verdadeira, que deixa claro que no fim das contas somos todos humanos e que a consciência desse fato ofuscante deveria derreter todas as nossas divisões por gênero, etnia, grupo de rock preferido, ou o que for. Deveríamos dizer não a todas as hierarquias que não venham da proteção ao outro. Deveríamos viver unidos, comprometidos com a ideia de que nossas diferenças não são autorizações divinas para a colonização do outro. Acho que era isso o que aquele filósofo alemão quis dizer. Não leio em alemão. Só conheço Marx pelas traduções. Uma falha de caráter, suponho. Em 1993, ano em que cheguei a Porto Alegre, minha tia Sonia tinha um plano para mim: pelas manhãs eu teria aula no Sévigné; durante as tardes eu faria cursos de línguas na Aliança Francesa e no Goethe. Negociei. Aceitei a matrícula no Sévigné, mas recusei os franceses e alemães. Fiquei com aulas à tarde no Cultural. Perdi Freud, Marx, Hegel e Adorno. E perdi uma bolsa para estudar em Berlim, em 2010. Vê? Nada de bom sai dessa história de defender a liberdade de ser ignorante. Na época eu só queria aprender inglês. Meus amigos todos faziam inglês. Se meus amigos todos tocassem oboé, eu ia querer aprender oboé. Se me torcessem o nariz, eu sumiria. Se me olhassem, eu existiria. Eu dependia das pessoas, mas elas não dependiam de mim. É assim que se reconhece um relacionamento abusivo. Foi em Bernhard que encontrei a chave interpretativa para desfazer essa dinâmica. Uma vez, assistindo a uma das montagens de Luciano Alabarse (tem algum modo de falar em teatro gaúcho sem mencionar o Alabarse?), senti um repentino e enorme medo de ser expulso do local. E tirei da mochila meu exemplar de Perturbação. Se me acusassem de intruso, eu diria que era leitor dele. Ler era sempre meu álibi. Ler era meu útero. Ninguém me expulsou. Tenho saudade do teatro… mas eu falava do Bernhard… Bem, a repetição de termos, a sensação de estar assistindo a uma extensa consulta psicanalítica (cuja promessa de um voyeurismo se transforma em uma armadilha para o leitor distraído), a escrita franca de quem sabe que é repetindo as coisas que a gente subtrai delas seu sentido falsificado, todas essas coisas ficaram em mim, desde que encontrei aquele Thomas Bernhard na banca Palmarinca. Esse ano Rui Gonçalves perdeu a vida. Não houve muitas homenagens a ele. Os livreiros não são muito respeitados. As pessoas odeiam os livreiros. Mas pensando bem, as pessoas odeiam os livros. E odeiam também os autores. E odeiam as autoras. E odeiam as livreiras. E odeiam os professores. E odeiam as professoras. E odeiam os médicos. E odeiam as médicas. E odeiam os motoristas de aplicativo. E odeiam as motoristas de táxi. E odeiam as motoristas de aplicativo. E odeiam os motoristas de táxi. E odeiam os funcionários públicos. E odeiam as funcionárias públicas. E odeiam os empresários. E odeiam as empresárias. E odeiam os críticos literários. E odeiam as críticas literárias. E odeiam as minorias. E odeiam as maiorias. E odeiam Stálin. E odeiam Hitler. E odeiam o açúcar. E odeiam o café. Odeiam isso e odeiam aquilo porque, afinal, já não podem, de tanto ódio, continuar apenas odiando a si mesmas. É certo que não podemos – com as parcas forças que temos – evitar que espalhem pelo mundo suas porcarias mercantis, seus releases disfarçados de resenha, seus textos auto-celebratórios, suas profissões de fé à indústria cultural. Não podemos, eu sei disso, evitar o triunfo do mal, mas não devíamos celebrá-lo. Não devíamos dar nosso endosso às forças que trabalham sistematicamente para nosso desaparecimento. Dar nosso endosso às forças que trabalham sistematicamente para nosso desaparecimento é algo que não deveríamos fazer. Eu digo isso porque realmente acho que você concorda comigo nesse ponto: não devíamos dar nosso endosso às forças que trabalham sistematicamente para nosso desaparecimento. E, se eu estiver realmente certo, você terá em mim um apoio, porque afinal, não daremos nosso endosso às forças que trabalham sistematicamente para nosso desaparecimento.

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel

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Literatura RS

Uma resposta para “Luiz Maurício Azevedo: Wolfsegg, Rio Grande do Sul

  1. “Deveríamos dizer não a todas as hierarquias que não venham da proteção ao outro.” – essa frase me representa.
    Que texto! Enxerguei a mim mesma na juventude, mas ao contrário, fiz o que meus amigos não faziam. Lia, pesquisava, estudava piano, artes, e inglês kkkkk (porque onde morava só havia o estudo dessa língua). Conhecer e conhecer a si mesmo, e prezar pela liberdade de escolha, é uma das maneiras de entender os outros e construir o respeito. Parabéns pelo texto.

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