Fernanda Bastos: Mea culpa

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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O arrependido tem sempre a razão? Essa é a pergunta que tenho me feito com frequência nesses dias. De um lado, é preciso que acomodemos o arrependimento de quem foi agente da opressão; mas, por outro lado, se há reconhecimento sobre a opressão, basta se arrepender? Um pedido de desculpas é reparação suficiente?

Na guerra ideológica da cultura, os vencidos costumam aproveitar a batalha para modificar a estratégia, e é justamente nessa hora que podem ocorrer apagamentos em suas condutas. Esquecer o erro, no entanto, pode acarretar em perda para ambas as partes: o algoz se transforma em vítima sem que precise se responsabilizar pelos danos que causou e tampouco pelo ônus da reparação, tão necessária para quem foi lesado.

Essa suposta falta de culpa permite que uma apresentadora, que desfrutou de seu privilégio branco por décadas, não se envergonhe do seu papel como símbolo da branquitude e que, anos depois, se veja como vítima – e não cúmplice – da ideologia de branqueamento e de produções culturais racialistas para o público infanto-juvenil brasileiro.

Hoje, há muito arrependimento disponível: arrepende-se quem torcia o nariz para o engajamento negro mas agora usa seu poder para supostamente chancelar o que antes desprezava. Arrepende-se a liderança política que foi contra as cotas mas ressurge nas eleições de 2020 como militante antirracista. Arrepende-se quem corroborou os padrões da indústria da beleza e agora defende uma vida simples. O mundo muda. E os opressores parecem mudar com ele.

Um levantamento da Escola de Jornalismo da Universidade do Mississipi mostrou que em 2020 houve mais capas de revistas com pessoas negras do que no apanhado de 90 anos de publicações. A motivação não foi apenas o assassinato de George Floyd, mas especialmente a repercussão do fato, ampliada na denúncia do Black Lives Matter. Qual seria o quadro se a dinâmica dos acontecimentos fosse diferente? O que seria de nós se o Black Lives Matter não tivesse se engajado por justiça após a morte de Floyd? Como estariam agora os arrependidos pela militância contra as cotas se seus manifestos em defesa de um país mestiço tivessem vencido? Estariam dando aula para salas com apenas dois ou três negros e poderiam atacar, sem embasamento teórico e empatia, artistas negras da cultura pop? O que teria acontecido se o Movimento Negro não tivesse pressionado as universidades, os governos e o STF para que aprovassem as cotas no funcionalismo e nos espaços de ensino? E se, ao assistir Pátria Minha, Sueli Carneiro não tivesse decidido interpelar a Globo chamando atenção para a ideologia do branqueamento nas novelas e, de modo geral, na TV? Teríamos roteiristas negros disputando narrativas em uma série sobre Marielle Franco?

O arrependido não deseja ouvir a resposta a essas perguntas, porque não se constrange em habitar um mundo que não ajudou a construir. A dádiva do privilégio.

Ultimamente, alguns museus europeus, que antes não topavam o debate sobre a origem de artefatos africanos em seus acervos, resolveram criar comissões e órgãos específicos para responder a movimentos da diáspora africana que defendem a devolução dessas obras conquistadas em pilhagens. Uma reivindicação dessa natureza vem sendo visibilizada em ações como a do Movimento pela Unidade, Dignidade e Coragem. Em uma das intervenções dessa organização, o ativista congolês Emery Mwazulu Diyabanza denunciou o Museu do Quai Branly, retirando de lá uma escultura de seu acervo e ameaçando levá-la de volta a seu continente de origem. O protesto-performance foi repetido em outros museus etnológicos da França e Holanda. O objetivo da ação era cobrar os governos europeus pelas promessas de devolução de peças adquiridas em pilhagens. Diyabanza foi preso e recentemente condenado a pagar uma multa, além de ter de cumprir alguns anos de reclusão. Não nos surpreendamos, no entanto, se daqui a uns anos, as mesmas peças que o levaram à Corte sejam devolvidas pelos agentes que o criminalizam, sem que Diyabanza seja nem sequer lembrado.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” e “Eu vou piorar” (Figura de Linguagem, 2018 e 2020).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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