Fernanda Bastos: A armadilha da diversidade

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre Divulgação Fundação Palmares

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Desde o ano passado tenho sido chamada por diferentes agentes da cultura para aderir a variadas manifestações contra Sergio Camargo. Sergio é filho do poeta Oswald de Camargo, um autor reconhecido e engajado com iniciativas de combate ao racismo no campo da cultura, especialmente sua atuação junto ao Quilombhoje há décadas atrás. Indicado por Jair Bolsonaro, Sergio Camargo conduz a gestão da Fundação Palmares e tem protagonizado ataques às administrações anteriores da fundação, a integrantes do movimento social negro e a atores negros de diferentes áreas do pensamento. Sua ação mais recente foi retirar do mapeamento de Personalidades Negras da entidade 27 artistas, intelectuais e agentes públicos, entre eles Sueli Carneiro, Leci Brandão, Elza Soares e Petronilha Silva.

A entidade justificou que a alteração segue uma determinação do governo de conceder homenagens póstumas e que novas homenagens serão anunciadas em breve. No mesmo dia que excluiu 27, a Fundação Cultural Palmares incluiu quatro nomes na lista: “Jacira Sampaio, a Tia Nastácia” (sic), Pixinguinha, Mussum e “Sargento PM Luiz Paulo Costa, O Negão do Bope” (sic).

Camargo, que é respaldado pelo presidente, reúne uma das principais características da força política bolsonarista, que é o gosto pela destruição. Assim que a lista dos excluídos foi divulgada, houve um forte movimento de denunciar o ato de Camargo. Muitos foram aqueles que novamente se perguntaram como agir para barrar suas ações e seu prejuízo para essa instituição criada em 1988.

Um dos excluídos, Martinho da Vila, afirmou que se sentiu aliviado de estar fora das homenagens da Fundação Palmares, e afirmou: “Me desvinculem daquela organização, porque eu não gosto mais dela. Ela não tem mais função. Brevemente, uma nova vai surgir”. A percepção de Vila contraria a opinião de muitas pessoas para quem é necessário denunciar e dar visibilidade às ações de Camargo. Vila aposta em outra estratégia, a de esvaziar o órgão e a representatividade do atual presidente da Fundação Palmares.

Único negro do alto escalão da gestão Bolsonaro, Camargo ocupa um cargo em uma pasta ligada à luta pela valorização da cultura afro-brasileira e de sua influência na cultura, economia e arte brasileiras. Não é, portanto, alguém que esteja desligado da pauta racial, mas, ao contrário, alguém que utiliza sua postura crítica ao movimento social negro para ocupar um espaço que só é legitimado pelo discurso contrário ao racismo. Sua posição em um governo que nega a existência do racismo é, dessa forma, um novelo de contradições. Não que ele não possa se posicionar como bem entende, mas pelo fato de que sua representatividade é esvaziada a tal ponto que ele não se constrange de compor um governo que nega o racismo para dirigir uma entidade ligada a reparar os efeitos do racismo.

Sua linha de atuação permite que esses mundos paralelos se encontrem e produzam efeitos externos. Para muitos, ele representa uma vergonha para nós negros. Credito isto não só à postura de Camargo, mas à prática de se escolher e legitimar o discurso de um único representante negro, ação que pôde ser observada em outras gestões também, mais à esquerda e progressistas.

O esvaziamento da pauta da diversidade no Brasil se liga à escolha de representantes que acabam com focos de reclamação em instituições e, em muitos casos, servem para limpar a barra de atores e empresas que se deseja reformar. De um lado, essas escolhas podem sugerir um avanço, mas, de outro, alertam para os limites da representatividade e da ideia de diversidade, quando entendida com simplismo e até oportunismo.

Por terem o racismo tão banalizado em sua rotina, não são poucos os que me cobram pelas atitudes de Camargo. E, assim como me questionam sobre o que posso fazer para atuar contra Camargo, me perguntam o que acho dos posicionamentos de outros sujeitos negros. Não tenho interesse em assumir a responsabilidade pela agência do outro e tampouco é minha obrigação fazê-lo por dividirmos uma coletividade. Não respondi por eles ontem, não respondo por eles hoje e não responderei por eles amanhã.

Embora a representatividade vise a reformar o racismo de agentes, empresas e instituições, ela pode levar a um entendimento equivocado, que abre margem para uma maquiagem sobre espaços que não estão comprometidos com a transformação social. Por isso que também não me sinto representada pela comissão que foi instaurada junto ao Carrefour, com representantes negros, para formular ações antirracistas para empresas. Não basta que um gestor reconheça em rede nacional seus privilégios e a existência de racismo estrutural quando à noite ele seguirá gerenciando mais uma das empresas em um mercado no qual os negros são os donos de coisa nenhuma. De minha parte, sigo esperando as respostas sobre por que as outras denúncias não foram ouvidas, aguardando também que ações concretas possam ser direcionadas à família de Beto e à comunidade que vivenciou o trauma de sua morte e que tem de se deparar todos os dias com um cenário sinistro de assassinato e vergonha que tem marca, agência, passado e presente.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de “Dessa Cor” e “Eu vou piorar” (Figura de Linguagem, 2018 e 2020).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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