Luiz Maurício Azevedo: Dupla fantasia

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Em um outro mundo, ao lado de um punhado de nozes chilenas com arroz, açafrão e canela, acompanhado por um californiano que não merecia ter sido guardado por tanto tempo, estou eu. Na minha frente há meu duplo, aos pedaços.

Teve um acidente de carro com uma colega de aula, uma vez. Sonhei anos com aquilo, embora não tenha nenhuma lembrança do carro, só do rosto dela metade 3×4, metade imaginação em movimento, me perguntando qualquer coisa que revelasse em mim uma vergonha de ter quinze anos na época e não conseguir até hoje pensar em seu nome sem pensar em estradas abandonadas.

Eu me lembro da gente voltando do enterro da Joyce (e só consigo dizer esse nome porque finjo que é sobrenome, não prenome, e me agarro ao James e não à Galarraga), nesse táxi que descia a rua do Cemitério, elaborando uma teoria capenga, segundo a qual Deus tinha matado nossa colega para dizer a todos que era ele quem decidia a vida e a morte, não nós, adolescentes mesquinhos e atordoados, fãs de Hootie and the Blowfish, Oasis, Aerosmith e Smashing Pumpkins.

Não me ocorreu que as coisas não ficam do jeito que deixamos. Há cinco anos eu ia pela primeira vez ao Central Park, e acabei dando de cara com o memorial a John Lennon. Eu deveria ter tido algum tipo de epifania sobre os lugares de celebração do luto, de preservação da memória ou ao menos um fragmento de crítica, aforismo destinado a destruir a Indústria Cultural, o sol, as cutículas, as partículas elementares. Contudo, nada aconteceu. Fiquei dando voltas em torno de homens com violões, crianças sorridentes e a luz do começo da primavera em Nova York. Eu estava no comando, mas ao virar de costas, alguma coisa quebrou e os mortos saíram de dentro de mim como ratos à noite, na praia. E eu lembrei da minha mãe, que pediu morangos antes de morrer; E do Wilmar, que recomendou que eu lesse um pouco sobre a vida de Lennon, porque o cara foi um grande Bitel, o melhor que tinha, mas a vida dele não foi só isso; E da Lúcia, que foi minha agente numa época em que negros não tinham agentes literárias, que disse que não se pode deixar de pensar em Lennon como outra coisa senão um farol de liberdade; E lembrei também da Suzana, mãe do melhor roqueiro que eu conheço, que me deu um livro de Stuart Hall, e me falou do racismo dos outros, quando todo mundo queria me convencer que não era racista; E eu finalmente pude ver o rosto de Joyce, seu cabelo escuro, sua face limpa, e uma lâmina azul de água me atravessou feito luz fria, e Dumbo, Williamsburg, Consolação, Harlem, Soho, Staten Island, Cidade Baixa e Hell’s Kitchen choraram comigo naquela manhã, porque eu havia arrastado até ali, intactas, todas as coisas que julgava ter destruído antes com meus pés duros.

Os mortos vivem através de nossa pele; os mortos se movimentam com nossas pernas; os mortos comem com nossas bocas; os mortos vivem, enfim, a nossa vida. De vez em quando eu me sinto compelido a lembrá-los disso, para que eles não esqueçam também de mim.

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel

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