Fernanda Bastos: A poesia conseguirá renovar a política?

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

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Não, não estou romantizando a democracia norte-americana, mas admirei a leitura realizada por uma poeta na cerimônia de posse da presidência nos EUA. Amanda Gorman foi a convidada, uma jovem negra, popular já aos 22 anos. Para o poema lido na solenidade, Gorman conta que teve como inspiração os motins contra o Capitólio norte-americano, que a fizeram refletir sobre os rumos da democracia estadunidense.

Onde muitos viram a decadência da democracia, Gorman escolheu outro prisma, que mira na esperança, sem compromisso direto com a realidade ou a distopia. The Hill We Climb é um hino de esperança e de patriotismo típico dos EUA, produzido sob medida para a crença em dias de glória: Não nos sentimos preparados para sermos os herdeiros/ de uma hora tão terrível/ mas nela encontramos o poder/ de criarmos um novo capítulo.

A escolha de Gorman e o trecho do poema, divulgado poucos dias antes da posse, viraram notícia. Até mesmo houve quem torcesse o nariz, parecendo se preocupar não tanto com a análise da qualidade dos versos e sim com o ressentimento de não ser escolhido no lugar dela — sentimento nada anormal nesse meio. Em uma cerimônia com tantas atrações, a presença da poesia nos reconecta com a possibilidade da dimensão transformadora da política e de como ela perpassa o engajamento inerente à arte. A ideia de convidar um poeta para apresentar uma produção feita especificamente para a cerimônia começou com John F. Kennedy, um político que circulava no mundo das famosidades e das linguagens artísticas. A cerimônia de posse de JFK, em 1961, teve Robert Frost, então com 86 anos, como poeta convidado. A coisa não saiu como o combinado. Apesar de ter composto Dedication para a cerimônia, Frost sofreu com um sol a pino que praticamente o impediu de ler. Restou recitar The Gift Outright, bem mais antigo, conhecido e que ele sabia de cabeça. O poema faz um inventário da busca humana pela terra, ressaltando o olhar do homem (estadunidense) como habitante pioneiro. O que a retomada das origens da “nossa terra” (“our land”) nessa perspectiva não dá conta é das críticas ao fato de que esse termo, tão comum no vocabulário daquele país, tem sido usado na política para fins diversos, mas sobretudo para endeusar um ideal de conquista atribuída a sujeitos de origem europeia – e racializados como brancos – que têm conquistado terras à base de invasão, escravidão, morticínio e aniquilação dos nativos. O verso final, que traz uma desconcertante ambiguidade sobre o futuro da terra gerida por aquela humanidade, foi adaptado para a cerimônia. Essa modificação, dizem, teria sido sugerida pelo presidente empossado.

Outra participação lembrada em cerimônias de posse é a de Maya Angelou, no primeiro mandato de Bill Clinton. A cena de criação aqui é outra: o passado rememorado é o de quem tentou se esconder na escuridão e o eu-lírico pontifica quase em tom de ameaça: Afundadas na ignorância,/ Suas bocas derramaram palavras/ armadas para o abate/ A pedra hoje nos conclama/ Você pode se manter sobre mim/ Mas não esconda seu rosto. Os versos solenes declamados naquele dia se articulam às ideias e às ações por justiça social que marcaram toda a trajetória e a obra de Angelou. Já Elizabeth Alexander, a escolhida do leitor refinado Barack Obama, privilegiou a dimensão cotidiana da poesia, trazendo cenas das vidas das pessoas, como uma mãe esperando o ônibus ao lado do filho, um agricultor que contempla o céu mudando de cor e uma professora em sala de aula. Seus versos remetem aos ancestrais, que prepararam o caminho do primeiro presidente negro e até hoje dão significado à vida de Obama e suas tantas conquistas. O amor como força motivadora surge nos versos finais, na encarnação do espírito da força dos sujeitos que precisam resistir. Eu sei que há uma coisa melhor em algum ponto da estrada./ Nós precisamos achar um lugar onde estaremos seguros./ Nós caminhamos dentro daquilo que não podemos ver.

Afora o registro oficial, poemas como esses lidos em cerimônias de posse podem ser eternamente lembrados ou facilmente esquecidos, como quaisquer outros. Uns argumentarão que foram as condições da encomenda (ou quem encomendou) o que determinará a elevação ou a morte dos versos. Embora a criação evidencie posturas políticas, é sempre problemático ligar a produção artística a agentes políticos específicos. As figuras da política possuem projetos que se moldam ao interesse de diferentes coletividades e que se ajustam ao espaço de poder ocupado e ao tempo, elementos nada sublimes. Ademais, o artista pode acompanhar um líder, mas dificilmente sua arte conseguirá fidelizar outras pessoas a se devotarem a um santo ou à sua causa.

Poucas horas depois da leitura de Gorman, o livro The Hill We Climb foi lançado à venda. Isso prova que a politização promove escritores e escritoras. E eles sabem disso. E não é que a arte pela arte ande desprestigiada, é que ativismos como os de James Baldwin junto à JFK estão hoje em alta, embora seja difícil comparar a subida de uma hashtag à sofisticação e à coragem de, mesmo pertencendo a um grupo social discriminado, sentar-se à mesa de um presidente cheio de poder, em um tempo de riscos. Mesmo sem ter sido convidado a declamar nas cerimônias de posse, Baldwin discursava dentro e fora de sua obra.

No filme Os sete de Chicago, uma personagem é considerada subversiva apenas por ostentar, na presença de um juiz racista e conservador, um exemplar da literatura do autor de Terra Estranha. Hoje, sem um governo que espiona e censura, o gesto de ler um escritor ou uma escritora como Baldwin dificilmente teria o mesmo efeito. Por outro lado, refletir sobre as ideias de justiça social continua sendo um ato de imersão na possibilidade de transformar o mundo.

Para mim, isso também é uma obrigação política.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de Dessa Cor e Eu vou piorar (Figura de Linguagem, 2018 e 2020).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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