Julgando pela capa: Perfumes e moscas, de Ismael Sebben

Edição: Vitor Diel
Texto, fotos e arte: Giovani Urio

Um projeto gráfico editorial de qualidade geralmente está relacionado com recursos financeiros destinados para sua produção – enfatizo aqui o geralmente, pois existem excelentes projetos gráficos, que, mesmo com recursos básicos, conseguem uma diferenciação e destaque com o bom uso de elementos visuais –, mas é inegável que ao optar por um papel mais encorpado, aplicação de verniz, mais cores na impressão e outros acabamentos, o impacto da publicação é amplificado.

Perfumes e moscas é um desses casos onde utilização de recursos gráficos enobrece a obra, potencializando logo no primeiro contato o seu impacto. A ilustração de Fábio Valle salta aos olhos antes mesmo do livro tocar as mãos do leitor e isso se dá muito em função do contraste das cores, um vermelho estrategicamente aplicado sobre um fundo chapado¹ preto, mas sobretudo, pela utilização do verniz UV² que destaca cada detalhe da ilustração. Além de proporcionar uma experiência sensorial tátil quando se desliza a mão sobre o sútil relevo do verniz e o emborrachado da plastificação fosca.

Ao optar por colocar a mosca em destaque na capa, Clô Barcellos – que assina a edição e o projeto gráfico da publicação –, já nos dá a dica do peso no texto de Sebben e percebemos imediatamente que, apesar do título, é um livro que trata mais sobre moscas do que perfumes. Nosso primeiro contato é com o inseto exposto, como nos livros de biologia, as linhas verticais que destacam o título e o gênero literário sustentam essa ideia, mas a escolha da paleta de cores nos distancia de sequer cogitar uma confusão sobre a natureza do conteúdo narrativo e entendemos de imediato a proposta da identidade visual.

O vermelho e o preto associados remetem diretamente a acontecimentos graves, a conflitos, ao sangue, à morte. Mas ao contrário de livros ou cartazes de filmes de terror onde o vermelho sanguíneo está ali jogado por todos os cantos, aqui ele se apresenta de forma delicada, cirúrgica. E um detalhe: o uso da cor no título do livro (e que pode passar despercebido para muitos) cria uma dicotomia e nos dá a esperança de encontrarmos aspectos livres de desconforto embutidos na proposta narrativa. Três letras (S, E e M) são grafadas em vermelho e em contraste com o branco das outras letras. Assim, temos a possibilidade de uma nova leitura (perfume sem moscas), uma informação que confronta todas as informações visuais fornecidas até agora e que desperta curiosidade no leitor antes mesmo de folhear o livro. Seria esse contraste também mais uma característica do texto do autor? Mas ao entrar no livro, percebemos que as moscas continuam ali, no verso das capas e das orelhas, nas páginas de abertura e nas vinhetas, embutidas nas narrativas, espalhadas pelo texto, às vezes como significante, às vezes como significado, e apesar do “perfume” por vezes dar as caras, são elas e seu universo simbólico as protagonistas da escrita.

Chama a atenção também a presença do vermelho por todo o miolo, sempre em elementos pontuais da publicação. Como resultado, tem-se um impacto visual contrastante, executado de maneira inteligente, sendo o vermelho utilizado até em trechos do próprio texto, mudando a experiência de leitura e enfatizando alguns momentos estrategicamente selecionados. O livro é impresso todo em duas cores, preto e vermelho – o branco, inclusive na capa, é próprio do papel e, em termos gráficos, nesse caso, não é considerado como cor –, um investimento executado com inteligência, uma vez que ao usar duas cores no miolo se faz necessário que a publicação entre duas vezes na fila de impressão, sinônimo de aumento de custos de produção, o que nesse caso é contra-balanceado com a utilização do mesmo recurso na capa, que quando colorida passa quatro vezes na máquina.

Outro diferencial, percebida já na quarta capa, é a presença de QR Codes que transportam o leitor para outras mídias, como o site da editora, onde somos apresentados a um podcast com leituras de alguns dos contos do livro, além de, dentro da publicação, também sermos transportados para outros lugares por meio de links que nos levam a imagens que aprofundam ainda mais o significado de alguns contos.

Perfumes e moscas utiliza de maneira primorosa os recursos captados para a sua realização. É notável como a presença de mais cores, a utilização do verniz e a leitura do livro por meio de outras mídias e todos os recursos empregados nesta edição abrem novas janelas de interpretações da leitura. O livro de Ismael Sebben foi contemplado pelo Fundo Municipal de Cultura de Bento Gonçalves/RS – um exemplo claro de como incentivos e apoio a publicações, sejam elas públicas ou privadas, contribuem e muito na produção de obras de qualidade, impactando a cadeia produtiva do livro.


¹ “Quando se usa na impressão, 100% de determinada cor. Na impressão, refere-se a áreas que são completamente cobertas com uma ou mais cores sólidas”. PromoPress, 2019. Disponível em: https://bit.ly/2NBlZzZ. Acesso em: 17 de fevereiro de 2021, às 13h45.

² “Produto geralmente composto à base de resina diluída num dissolvente, que se deposita através da impressão na capa de um livro para protegê-la ou torná-la brilhante”. Guia do Gráfico. Disponível em: http://bit.ly/3qymWrj. Acesso em: 17 de fevereiro de 2021, às 13h51.

Perfumes e Moscas
Ismael Sebben
204 p.
13 x 20 cm
978-65-86264-12-8
R$ 30
Libretos

Bacharel em Design, Giovani Urio nasceu em Passo Fundo, em 1983. É artista gráfico com ênfase na criação editorial. Foi diretor de arte da Revista da Cerveja e do Jornal do Mercado entre 2012 e 2017, com experiência em núcleos de marketing, agências de publicidade, escritórios de design, e assessorias de gestão pública. Como ilustrador, teve sua primeira exposição individual na Pinacoteca da AJURIS em Porto Alegre e participou da 19ª Mostra Sesc Cariri de Culturas na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará. É Diretor de arte do Literatura RS. Foto: Vitor Diel

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