Guilherme Smee: Wanda, Visão e a máquina de fazer loucos

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre divulgação

É muito comum encontrarmos a metalinguagem, ou seja, referências à própria linguagem, nas histórias em quadrinhos de super-heróis. Acredito que isso tenha acontecido desde que o primeiro desenhista resolveu homenagear alguma capa clássica da história das histórias em quadrinhos, recriando-a. Contudo, a presença da metalinguagem dentro da produção audiovisual de super-heróis é mais recente, mas por outro lado muito mais intensa do que nas histórias em quadrinhos desses seres poderosos.

Para aqueles que estão mais atentos às produções audiovisuais dos quadrinhos de super-heróis, não tem como esquecer o Capitão América, deslocado no tempo, dizendo a frase que virou meme: “Entendi a referência”. Atualmente, nesse tipo de produção, aquilo que não é metalinguagem é referência. Os filmes e séries fazem alusão tanto às histórias em quadrinhos originais, como a material audiovisual já produzido, também a outros produtos da cultura pop e também a diversos elementos que fazem parte do cotidiano, como os próprios memes da internet.

Diz a velha frase “Quem tem referências tem tudo”. A máxima pode funcionar um tanto invertida. “Quem não tem referências também pode ter a oportunidade de ter tudo”. Isso porque ao assistir uma película do universo compartilhado de filmes da Marvel ou da DC Comics, o espectador não precisa ter nenhuma informação prévia. Porém, se não tiver a vontade e a iniciativa de procurar as referências provavelmente estará perdendo metade da diversão.

Isso acontece com o mais recente seriado do Marvel Studios, WandaVision, a primeira produção feita exclusivamente para o canal de streaming Disney+. Aparentemente o seriado acompanha a vida de recém-casados de dois super-heróis, Wanda Maximoff e Visão, em uma cidade suburbana dos Estados Unidos. Aparentemente. Pois a cada episódio vamos descobrindo pequenas inconsistências nesse mundo perfeito, nos melhores moldes do filme O Show de Truman, do diretor Peter Weir.

Mas essa não é a primeira referência que vem à tona quando assistimos WandaVision. É I Love Lucy, uma das primeiras sitcoms familiares dos Estados Unidos, que surge na mente. Daqueles, é claro, que tem essa referência. Para a maioria dos brasileiros e moradores de outras partes do mundo que não são os Estados Unidos e não possuem referências sobre a história da cultura pop, o primeiro episódio de WandaVision vai aparentar uma pobreza narrativa e uma artificialidade no seu ecrã preto e branco fora da ordem do dia para seriados contemporâneos. Inclusive longe da estética do Marvel Studios. É possível que por isso este primeiro episódio e o segundo, que homenageia o seriado A Feiticeira (referência: nos quadrinhos Wanda Maximoff é chamada de Feiticeira Escarlate), não terem se saído muito bem com a crítica brasileira, tanto nos meios profissionais como nos amadores. Falta referência.

Na sequência, sem revelar muitos spoilers, WandaVision continua entregando mais e mais referências a outras sitcoms, de outras décadas, mas ainda dentro do mesmo espaço: os Estados Unidos.

Divulgação

Nas histórias em quadrinhos, Wanda Maximoff possui o poder de alterar a realidade em sua volta. Um poder que começa tímido, como alterar a probabilidade de um galho podre de árvore cair sobre a cabeça de um vilão, até a megalomaníaca saga Dinastia M, em que Wanda, de posse da totalidade de seus poderes reescreve o mundo, onde os mutantes (dos filmes e quadrinhos dos X-Men) dominam o mundo. Nos quadrinhos, Wanda possui um histórico de perturbações psiquiátricas, fonte dos abusos morais que sofreu de seu pai, Magneto, e de seu irmão, Pietro, o velocista Mercúrio. Muito dessa perturbação foi despertada com a perda de seus filhos com o Visão, um sintozóide, espécie de andróide humanizado, que foram criados através de seus poderes de alteração de realidade. Tudo piorou muito quando o próprio Visão foi morto.

Assim, Wanda acabou entrando para o rol de diversas mulheres das histórias de quadrinhos de super-heróis que, ao possuírem um poder que não conseguem controlar, que parece maior que elas, enlouquecem. Isso aconteceu, apenas para citar a Marvel, com a Fênix, a Mulher-Invisível, Polaris e algumas outras. É um plot recorrente na Casa das Ideias, que é uma espécie de mistura de horror cósmico, com distopia de controle e a visão machista de um suposto feminino recalcado que vem à tona na forma de dominação de tudo e de todos.

Existe uma mulher assim na vida real? Bem, não exatamente uma mulher, mas uma figura de influência feminina, que serve de mãe, de virgem, de anciã, e dos mais diversos arquétipos femininos que pudermos encontrar. Trata-se de uma mistura da perturbação controlada de Wanda e da assepsia programada do Visão. É apelidada de “máquina de fazer loucos”. É a televisão.

A televisão ajudou a criar diversas crianças que na frente da sua telinha entenderam o mundo e passaram a agir conforme a sua vontade. Ela aconselha não só as crianças com sua “sabedoria”, mas também controla os adultos e cria necessidades através de seus programas e intervalos comerciais. Ela desperta a sexualidade de homens, mulheres e até daqueles que não se identificam com nenhuma binariedade com suas imagens luxuriosas, não apenas de corpos, mas de produtos e de sua própria linguagem que enreda a todos em seus encantamentos.

Por isso, intencionalmente ou não, associar uma “mulher louca”, seu marido-máquina, sua família e amigos ficcionais à televisão não é apenas uma referência, mas uma crítica. Acredito que toda vez que uma referência é usada, remixada, reconstruída em uma outra, na realidade, aquele que a produz, está articulando uma crítica. Wanda criou um mundo especial para si mesma, onde pode controlar tudo que acontece sem as imprevisibilidades da existência. Desenvolveu um lugar perfeito como os comerciais de margarina que aparecem na televisão, ou ainda, nas sitcoms dos anos 1950 e 1960, onde um dos maiores problemas era ter que fazer um jantar para o chefe do marido. A cidade que Wanda cria é uma crítica à destruição que sua vida tem sofrido desde a perda de seus pais, passando pela perda do irmão e a do marido, tudo isso dentro de sua história no universo cinemático da Marvel.

Wanda reconstrói seu mundo, mas está tudo na programação, está tudo sob controle. Como um controle remoto está ao alcance da mão daqueles que assistem à televisão. Enquanto meio de comunicação, a televisão dá ao indivíduo essa anestésica sensação de que ele pode escolher o que quer, seja no zapping do controle, seja na lista de produtos que os intervalos comerciais veiculam. E mesmo na era dos streamings, essa sensação parece ter mudado de frequência, mas se mantido essencialmente a mesma, porque agora pode-se assistir ao programa que quiser no momento que quiser.

Dentro das escolhas da televisão, somos todos Wanda Maximoff, somos todos Feiticeira Escarlate, porque podemos alterar as probabilidades do tipo de narrativas que iremos colocar na nossa frente e sermos influenciados por elas. Através delas, cruzamos referências de diferentes mundos para, depois, construirmos nossa própria realidade com as ferramentas que essas narrativas nos constituíram. Referências que num primeiro olhar, hipotético, tabula rasa, intocado pela influência da televisão, poderiam parecer casos de psiquiatra: múltiplas personalidades, esquizofrenia, estresse pós-traumático, assim como podem parecer os episódios de WandaVision se assistidos solitários, sem o apoio dos demais.

Nos quadrinhos, tanto Wanda como Visão, para não permanecerem solitários, construíram do nada uma família para si mesmos, utilizando de seus poderes incomuns e fora da realidade. É de se pensar, portanto, o quanto pessoas como eu e você, para não parecermos solitários, recorreremos ao poder do audiovisual (e de outras narrativas ficcionais) criando e satisfazendo nossas necessidades.

Principalmente em tempos de pandemia, em que precisamos ficar em casa e consumir narrativas das mais diversas realidades, temos de pensar criticamente a televisão e as narrativas que consumimos. Quanto dessas histórias construíram para nós uma espécie de família representada pela televisão? Além disso, como entendemos as noções de família que temos hoje (nuclear, homem e mulher casados, com um casal de filhos, todos perfeitos e sadios) a partir dessas histórias?

O quanto a influência dessas narrativas estão criando em nós a necessidade de controlar o mundo e aqueles que estão à nossa volta para que fujamos da realidade e nos tornarmos enlouquecidos como a Feiticeira Escarlate? A máquina de fazer loucos tem produzido há tempos séries sobre a máquina de fazer loucos. E toda loucura tem seu método. O louco método de WandaVision é fazer uma crítica-homenagem e, ao mesmo tempo, organizar uma assimilação, uma concordância com essa tendência, como todo bom produto da cultura pop realiza.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s