Fernanda Bastos: Promoção de ideias

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

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Em Black History as Myth (A história negra como mito), texto escrito em 1979 para o New York Times Book Review, June Jordan analisa uma obra que supostamente já teria “nascida um clássico”. Tratava-se de Black Macho and the Myth of the Superwoman, de Michelle Wallace. Jordan alerta, no texto, para a mudança de perspectiva peculiar da mídia que, após silenciar a experiência negra nos anos 1960, aproveitara o lançamento do livro de Wallace para tentar edificar um pensamento sobre aquela época.

Além da forte crítica à promoção exagerada que foi feita em torno da obra, Jordan enumera os vários erros informativos que ela propaga. Mas a crítica mais devastadora está na ideia central do livro, a super mulher, mito abordado por Wallace para descrever a disparidade nas relações entre homens negros e mulheres negras, um tema que o material publicitário da edição vendia como novo e que Jordan demonstra que na verdade eram comum nas discussões cotidianas das mulheres em casa, nos sindicatos e na universidade, bem antes de 1979.

Outra crítica que Jordan faz ao livro é que, na tentativa de generalizar o comportamento de mulheres negras, ele acaba por apagar suas iniciativas, especialmente as artísticas. As perguntas que Jordan faz ao final da resenha são cortantes: por que esse livro tão ambicioso é escrito por alguém que não pesquisava sobre o tema e que nem viveu a luta política organizada nos anos 60? Por que um livro assim, erigido na imagem de uma mulher negra jovem e de classe alta, consegue tamanha promoção pública a partir da ideia de que ele pode dar conta da experiência de um contingente populacional tão silenciado até então no mercado editorial?

O que justificaria o estrondoso marketing em torno de uma obra com um ímpeto tão revisionista, com potencial para minimizar a trajetória política de lideranças e símbolos da história negra como James Baldwin, Angela Davis e Harriet Tubman? Na perspectiva de Jordan, aquela promoção contrastava com a demanda das mulheres negras organizadas mas também se justificava pela necessidade que o mercado tinha de fazer circular tais ideias.

O texto de Jordan é um exercício instigante para pensar sobre como são escolhidas as ideias que nos rodeiam e sobre como ocorrem as escolhas de representação de grupos historicamente silenciados em locais estratégicos de visibilidade. Os livros de ideias, afinal, não fogem muito às ideias que aqueles que os publicam querem ver circulando por aí. O mesmo ocorre com a ficção, com a poesia e com os museus. A nós, cabe conhecer os processos de chancela e os caminhos que definem quem diz o que devemos ler, mesmo que as motivações não sejam anunciadas na propaganda.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de Dessa Cor e Eu vou piorar (Figura de Linguagem, 2018 e 2020).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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