Fernanda Bastos: Os árbitros, as botas, as melancias e os postes

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

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O apito sobre o corpo alheio não é uma característica nascida do bolsonarismo, nem sequer teria ressuscitado com a chegada de Damares ao governo. Em diferentes campos políticos ele sempre esteve vivo naquela pulsão de destruição do sonho do outro, do novo, do improvável que luta para acontecer.

Quando me tornei vegetariana, mesmo não sendo uma militante contra o carnismo, ouvia muitas críticas à minha decisão. Eram pessoas que me relatavam o quanto o mundo tinha problemas, e que esses eram bem mais graves que a exploração animal. Era a fome, eram as queimadas, era até a desunião das esquerdas. Se eu questionava o que elas estavam fazendo para mudar os tais problemas mais graves, elas desconversavam, porque o foco era me desencorajar a produzir qualquer mudança com um propósito, mesmo que esse propósito só dissesse respeito a mim.

Percebi, nessa época de adolescente, que as escolhas politizadas incomodam quem está comprometido com o status quo. E, de certa forma, ofendem quem não tem vontade de peitar o estabelecido. Percebi também que uma escolha conscientemente emancipatória pode incomodar mais do que a permanência da alienação e da mesmice.

Desses episódios faço uma analogia com o mercado independente na literatura. Muitos são aqueles que desejam vê-lo aniquilado, porque isso permite que a presença das grandes empresas e dos ricos seja normalizada, e seu poder permaneça inequívoco. Se só as grandes editoras puderem negociar direitos autorais; se só elas venderem livros aos governos; se só elas puderem dizer o que for importante ler, certamente teremos facilitado o trabalho do poder branco heterossexual cisgênero (mesmo que ele eventualmente use outras roupas, outro gênero e outra pele). Conduzir com fé projetos artísticos alternativos não torna alguém um herói ou uma heroína, mas muito menos aqueles que se agarram na impossibilidade de mudança merecem ser considerados vitoriosos. Enquanto marginalizados podem celebrar suas mini conquistas, as gloriosas vitórias destes outros pertencem àqueles que lhes concederam o ganho e que estão acostumados com benefícios muito maiores.

Vivemos um cenário de crise econômica no qual quem faz as escolhas mais difíceis paga muito caro. A crise não é, no entanto, apenas uma questão de negócios, mas uma luta pela sobrevivência de outros meios e modos de fazer literatura. A inviabilização é real, mas não é o limite do pensamento. Para aqueles que desejam andar à margem, não deixa de ser chocante identificar a destinação desproporcional de ódio e ressentimento daqueles que não querem mudanças. Por esse motivo, há que se tomar muito cuidado com as críticas que são na verdade desejo de destruição da utopia ou da realidade fértil, bem diferente dessas coisas que insistem em acontecer todos os dias. Heróis e heroínas podem mesmo nem existir; mas gente produzindo mudanças no próprio mundo, felizmente, ainda existem. E seguirão assim.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de Dessa Cor e Eu vou piorar (Figura de Linguagem, 2018 e 2020).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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