Luiz Maurício Azevedo: Do amor

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Nessa época do ano, meu pai achava a vida especialmente insuportável, então dirigia até o Uruguai, para respirar em Montevidéu. Não sei como fazia. Não sei onde abastecia. Nem sei ao certo se isso é algo digno de nota. Contudo, não posso me furtar a fazer dessa lembrança um tratado. Quando se tem pouco, a tendência é amar o exagero. E hoje em dia temos quase nada.

Já faz um ano que estamos na pandemia e o mundo não mudou naquilo que gostaríamos que ele tivesse mudado. Em certo sentido, vivemos a versão provisória de um pesadelo eterno. Ano passado, no fim do carnaval, a maior parte dos meus amigos tinha pais vivos. Agora, emparelham-se comigo, com seus exemplares de O ano do Pensamento Mágico. E eu, que era um homem das letras, me tornei um homem da COVID. Sonho com ela; fantasio assustado o dia de nosso encontro; respiro as siglas que a acompanham: SARS-COV-2, COVID-19, OMS, SUS e BOZO. Sofro por antecipação. Aqueles que sofrem por antecipação acreditam poder enganar os deuses; acreditam poder ganhar um tipo de comprovação de sofrimento para que quando o sofrimento real chegue eles possam realizar algum tipo de abatimento ou dedução. Tenho um amigo – mesma idade que eu, mesmo peso, mesmo nome – que fica acordado em voos internacionais porque acredita que qualquer conforto durante um voo pode ser transformado em culpa… e culpas somadas, isso é sabido, derrubam um avião.

O valor do que somos está intimamente ligado àquilo que acreditamos que os outros não podem ser. Lembro que uma das paixões da vida foi caçar as bandas que o Fabio Massari – reverendo Fabio Massari, aliás – indicava no extinto Lado B, da antiga MTV. No momento em que as outras pessoas descobriam essas bandas, eu perdia subitamente meu interesse. Não gostava de música, gostava da sensação de ser especial. Inaugurei assim uma nova forma de vida: a independência tutelada. Eu precisava do olhar visionário de alguém para viabilizar meu plano de não fazer parte do rebanho. Algo semelhante ocorre agora: preciso de elementos que orientem minha liberdade, mas como não os tenho, estou aprisionado do lado de fora do mundo. E fico bem aqui. São meus os caracteres, os alfabetos, as margens, os miolos, as lombadas, as fichas catalográficas e as histórias. A cada livro um espelho; a cada narrativa uma razão pessoal. É na literatura que encontro o único universo onde ainda posso respirar. E, por enquanto, ficarei nele.

Lá fora o mundo inteiro somos nós, mas aqui dentro sou eu em toda a parte.

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel

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