Fernanda Bastos: A gente má do livro

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

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Eis que o truísmo veio à tona nesses dias de protesto contra a taxação de livros, aquele de que pessoas que leem são melhores. Estou na fileira das pessoas que acredita na potencialidade da leitura em todo processo de aprendizagem, e na literatura como elemento formador de conhecimento sobre culturas, História e sujeitos em todas as suas complexidades. Entretanto, sei também que o grupo de amantes do livro é tão heterogêneo e comum em suas qualidades como os personagens das obras mais duradouras da humanidade. O tamanho de nossa biblioteca mental ou física fala apenas sobre nossos interesses, não sobre como estamos mais aptos a salvar o mundo. A leitura não é um antídoto; não é por conhecermos a vaidade de Aquiles, a inveja de Iago ou o ressentimento de Joe Trace que nos tornamos menos vaidosas, invejosas ou ressentidas. Tampouco os autores que amamos estão a salvo de equívocos políticos, ou mesmo de registro de suas colaborações sistemáticas por sistemas de opressão de gênero, classe, raça, orientação sexual ou etnia. O professor emérito de Oxford, John Carey, afirma que acredita que “a arte vem da vida”. Ele prova esse pensamento em seus livros, como Little History of Poetry, meu companheiro mais recente, que é uma história sobre a construção do cânone da poesia a partir do cotejo entre a vida e a obra dos autores. A abordagem começa na Epopeia de Gilgamesh e vai até a poética de Maya Angelou. Carey não poupa os autores do passado do peso de suas ideias misóginas, racistas, lgbtfóbicas e mostra, com habilidade, como elas ficaram incrustadas nas obras analisadas.

Se alguém pontuar que essas características não impediram que esses autores resistissem ao tempo, deverá também entender que elas não podem ser menosprezadas como mero registro “do pensamento de um tempo”. Aqueles que resumem o problema dessa forma pressupõem uma natureza benemérita de nossos escritores e escritoras canônicas, como se o talento, a técnica ou a imaginação criativa lhes dotasse um espírito superior. Leitores adultos têm de lidar com o fato de que alguns de seus autores podem ter sido, em vida, cruéis e mesquinhos; e que a maneira com que se comportaram em suas épocas ajudou-os a conquistar os postos e a notoriedade que alcançaram. Se eles pensassem de outra forma, resistiriam ao tempo em que viviam? Suas obras seriam tão lidas e respeitadas? Se fossem o que quiséssemos e, portanto, mais adequados para os nossos anseios, eles produziriam pior ou melhor?

Infelizmente muitos de nós, leitores e leitoras, só costumamos pensar sobre essas perguntas em situações em que flagramos as falhas morais de nossos escritores por escândalos na imprensa ou por reações organizadas de uma pessoa específica ou de grupos vítimas que foram alvo de discurso ou ação de um determinado autor, ou quando os críticos fazem bem seu trabalho. Aliás, esses são muitas vezes tratados como chatos estridentes, que atrapalham a festa animada da promoção da venda de livros. Às vezes os críticos são até vistos como inimigos da liberdade de expressão e da arte. Muitos de nós esquecem, por ignorância ou por propósito, que a arte também progride a partir dos questionamentos sobre si mesma.

Nossa paixão pelos livros, que é quase uma religião, alimenta a crença frágil de que leitura sustenta caráter. A literatura, para ter força verossimilhante, precisa retratar com exatidão nossas falhas cotidianas e o longo embate narrativo entre perversidade e bondade. Por outro lado, a ética ainda é um imperativo para a vida social. Se o componente moral continua sendo importante para cobrarmos um parente, um colega de trabalho, um professor, um lojista, um jornalista ou um presidente, também deveria ser importante para balizar as escolhas de um escritor, de um editor e de qualquer outro profissional ou empresa do meio do livro. Caso contrário, seríamos todos hipócritas, lidos ou não.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de Dessa Cor e Eu vou piorar (Figura de Linguagem, 2018 e 2020).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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