Luiz Maurício Azevedo: Da psicanálise e do fetiche

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Nos últimos dez anos, desenvolvi uma ambição que girava em torno de uma fantasia um tanto abjeta: a certa altura eu chegaria ao topo da vida econômica social, me sentaria frente a Contardo Calligaris e começaria a tratar dois ou três traumas que simularia ter. Os traumas verdadeiros eu já teria eliminado todos. Depois da primeira sessão, sairia por aí feliz, cappuccino no Conjunto Nacional, cinema na Augusta, andar distraído, chopp na Mercearia, frases do tipo: “Vocês sabem, o meu psicanalista é um tanto lacaniano, né? Por isso eu tenho que aprender algo novo toda hora.” Essa seria uma confirmação da minha vitória social, do meu triunfo sobre as precárias condições de nascimento, a definitiva superação do ponto de partida, a metamorfose de um coadjuvante pintado por Debret em protagonista logomaníaco de filme de Domingos Oliveira.

É lacração que chama?

Bem, a coisa toda não era o fetiche de ter um psicanalista porque isso (ao menos isso, afinal) não é novo para mim. Desde os vinte anos faço terapia. Antes era por necessidade. Hoje já é por prazer, mesmo. A novidade não era minha. O inédito era a centralidade de uma psicanálise centrada no psicanalista e não no analisado. Por múltiplas razões esse cenário me interessava.

Hoje, já não interessa mais.

Contardo nunca foi e nem nunca será meu terapeuta. Brincar com isso era somente um modo de simular conforto em relação a certas limitações da minha classe. Sua morte encerra o teatro porque evidencia justamente a raiz óbvia do meu desejo de emergente.

Alguém disse certa vez – acho que foi o meu tio Paulo – que quando somos crianças gostamos de coisas de criança, mas quando nos tornamos adultos passamos a gostar de coisas de adulto. Na falta de coisa melhor, tendo a concordar com o que me explica.

A porta de saída de toda ilusão é o caminho para uma outra.

Uma das fantasias mais interessantes da vida é acreditar que a falta de interesse dos outros por nós se deve ao fato de as pessoas desconhecerem o valor que temos. E esse valor imaginário – e isso me parece ainda mais curioso – aumenta pela renitente falta de reconhecimento público dessa suposta certeza. O ser humano é mesmo uma máquina de produzir fracassos. Vai ver por isso tive oito psicanalistas. De vez em quando, substituo um profissional por outro, já que não posso substituir o analisado. Fadiga de material, suponho. O único psicanalista que nunca falhou comigo foi Contardo, coincidentemente jamais fui seu paciente.

Jean Baudrillard, morto em 2007, defendia que certas coisas, mesmo quando subtraídas de sua função primordial, continuam a funcionar. E o mais irônico: funcionam melhor ainda. Um psicanalista é alguém que possibilita que nos libertemos da ilusão de que nossa história interessa a outro leitor além de nós mesmos. A narrativa de cada um é como a porta kafkiana da lei: serve somente a alguém que está impedido de compreendê-la.

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel

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