Fernanda Bastos: O mercado da biografia

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

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Poder narrar as histórias das descendentes de artistas consagrados é sempre uma grande oportunidade jornalística. Reportagens assim representam a possibilidade de que fãs possam conhecer profundamente hábitos, afetos e manias de sujeitos que produziram as obras de arte com as quais mantemos conexão. Uma vez que nem sempre o artista está presente para que possamos conhecer seu estilo de vida (Fran Lebowitz que me desculpe pelo uso desse termo), talvez seja especialmente saboroso conhecer o teor dos relacionamentos familiares daqueles que se cristalizaram em nosso imaginário, por causa de uma foto, uma obra ou mesmo uma frase. A coisa fica ainda mais interessante quando certos artistas rompem com as conformidades de gênero e de classe que historicamente têm dominado o mercado da arte. Nesse caso, pode-se avaliar como um alguém conseguiu, por meio de seu trabalho e atuação, forçar uma insurreição a longo prazo na própria vida e na vida de seus descendentes.

Foi a partir dessa perspectiva que li a matéria Netas de escritora Carolina Maria de Jesus dizem viver ‘Quarto de Despejo 2’, publicada pela Folha de S.Paulo, no início de maio. A boa reportagem de Fernanda Canofre é justa ao dar voz às netas de Carolina, à sua filha Vera Eunice e às editoras que administram os direitos de seus livros. Não é incomum que herdeiros briguem pelos direitos autorais dos gênios dos quais descendem. Isto é, quando eles são – ou parecem – rentáveis. No caso de Carolina de Jesus, a primeira constatação é que a trajetória da Carolina continua um acontecimento interessante para o jornalismo. É uma história moldada para o sensacionalismo, mas o texto de Canofre é menos sensacionalista do que costumam ser os recortes recorrentes da história da autora. Exemplo dessa vertente é uma matéria de Karla Monteiro, na mesma Folha, em 2014, que chamava a atenção pelas escolhas a começar pelo título: “Escritora Carolina Maria de Jesus viveu do caos ao caos”.

No texto de Monteiro, por exemplo, não há menção sobre o impacto do racismo na trajetória de Carolina ou sobre as dificuldades da autora para se inserir em um meio branco e elitista como é o editorial – e o cultural em geral no Brasil. Apesar da ausência de especulação sobre os efeitos da marcação de raça e gênero na trajetória de Carolina, a reportagem não se furta a entregar pistas sobre a personalidade da autora, características que em outros gênios, homens e brancos sobretudo, soariam como naturais. “Metida e indisciplinada, como a definem os que conviveram com ela, pulou de emprego em emprego (…)”, salienta a jornalista em um trecho.

Em 2021, depois do Black Lives Matter, dificilmente uma elaboração como essa seria publicada no mesmo espaço, sem qualquer tensionamento. Enquanto alguns insistem em depositar em Audálio Dantas seu incômodo, pouco se especula sobre as possíveis dificuldades de Carolina em lidar com as opiniões desfavoráveis que o mercado tinha sobre a literatura negra, de mulheres e periférica. Outra lacuna aparece na ausência de menção às expectativas da autora. Quais elementos alimentaram sua crença de que poderia mudar de classe e se sustentar somente com a venda de sua produção? Mesmo hoje, com um mercado globalizado e supostamente preocupado com a diversidade, a possibilidade de obtenção de sustento pela publicação de livros parece bastante remota. Havia alguém com quem Carolina conversava sobre esses anseios e sonhos que contaminam os escritores sejam ele faria-limers ou periféricos?

Para a família de Carolina, a renovação do interesse comercial pelas obras da parente ilustre é ótima notícia, porque possibilita que se diminuam eventuais dificuldades financeiras, produzidas desde gerações anteriores a de Carolina — que teve pais analfabetos em uma época em que sujeitos negros recebiam ainda menos oportunidades e não eram, para dizer o mínimo, bem-vindos nas escolas. À família, cabe discutir o legado da autora e administrar seus ganhos. E a nós, leitores, leitoras, autores, autoras, escritores e escritoras que de origem negra, cabe o quê desse legado?

Em 2021, o espaço da produção negra na literatura de massa ainda é o do exotismo. Tantas décadas depois de Carolina, o grande projeto editorial parece permanecer no espetáculo da produção de um enorme sentimento de pena.

Depois que lancei Dessa Cor, meu primeiro livro, em 2018, me vi imersa em questionamentos sobre que tipo de literatura desejava produzir a partir dali. Meu segundo livro, Eu vou piorar revela um pouco dessa investigação, que me fez pensar se não devemos fugir a todo custo de qualquer tipo de explicação de nossas dores ancestrais para brasileiro ver. Salvo exceções e personalidades fora da curva, escritores de ficção desejam a fama e o êxito financeiro, o que lhes proporciona, além dos benefícios já citados, mais leitores e mais trocas. Seria uma oferta e tanto. O problema é que, para entregar o que promete, o mercado explora estereótipos e faz do sensacionalismo – e não da literatura – o centro de sua existência. Assim, o establishment relega nossa produção negra (seja ela famosa como a de Carolina de Jesus ou obscura como a minha) ao status de uma mercadoria que só adquire valor quando observada por um agente branco. Uma roda viva.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de Dessa Cor e Eu vou piorar (Figura de Linguagem, 2018 e 2020).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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