Luiz Maurício Azevedo: Cappuccino canela venti

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Certa vez minha tia mais velha mobilizou a casa inteira em função de um instigante crime: sua bacia de plástico, imprescindível para ela aceitar viver em um apartamento sem bidê, estava quebrada. Não era exatamente um dano fatal: tratava-se de uma lasca na parte de cima, algo que ela classificou como “muito perigoso, a pessoa pode até se cortar ali”. Ela começou uma investigação doméstica implacável, indagando a todos. “Suspeito não tem idade”, ela argumentou, fazendo cosplay de Datena encarando meu primo de dois anos. Para resolver o problema minha tia Sonia fez o que sempre fazia quando as coisas se complicavam: foi até o Zaffari. Quarenta minutos mais tarde, retornou com uma outra bacia, em tudo idêntica à primeira.

Isso, contudo, não resolveu o problema.

Minha tia estava fixada na antiga companheira de escalda-pés. Queria saber as circunstâncias do dano. Quem teria quebrado? Quando? Por qual motivação?

Os dias se arrastaram e todo mundo que ela encontrava recebia um longo relatório sobre o progresso de seu inquérito, seus suspeitos, seus caminhos, as técnicas que estava usando para trazer a verdade à tona.

Sem ter condições de maximizar a atenção que recebia da vida, transformou em epicentro o que era periferia, fazendo do detalhe insignificante o ponto principal de seu estilo de vida. Se não podia mudar o território, mudaria o mapa. Por outro lado, mobilizar os outros naquela pendenga melancolicamente sua era envolvê-los um pouco em sua rotina inútil, vazia. Gritando o valor das coisas mutiladas ela sugeria que as coisas – ao menos as coisas – merecem o nosso respeito.

Lembro desse causo familiar ao acompanhar a polêmica que se formou a partir do anúncio de que Porto Alegre finalmente terá uma filial da Starbucks. As críticas à instalação da empresa me lembram que o anticapitalismo não é uma força necessariamente positiva. Como se dizia lá na UNICAMP: há uma diferença entre gostar do capitalismo e não gostar de ser pobre. Detestar o sistema econômico ao final do mês, quando o saldo bancário é negativo é uma coisa; detestar o capitalismo na primeira semana do mês, quando o salário-fresco nos dá ilusão de poder é outra.

É particularmente curioso que o portoalegrense veja na instalação de uma cafeteria um motivo para uma guerra política. Isso revela as limitações de nossa, vá lá, intelectualidade contemporânea.

No centro de POA há o Palácio do Governo do Estado, a Catedral, dois colégios tradicionais, a Santa Casa, a Biblioteca Pública, o teatro mais prestigiado, o Tribunal de Justiça. Na rua específica onde funcionará o café, a Rua dos Andradas, acontece, todos os anos, a Feira do Livro. E há também a Casa de Cultura Mario Quintana, a igreja mais antiga da cidade e o local onde possivelmente teria sido o nosso pelourinho. Não resta dúvida, portanto, da importância do local, de sua centralidade histórico-geográfica, mas alguns argumentam que era melhor que a loja fosse aberta em alguma rua do bairro Moinhos de Vento. Dispostos a prestar consultoria gratuita a uma empresa que eles garantem detestar, esses críticos alegam que o público gaúcho prefere outro tipo de café e que, portanto, o investimento teria o fracasso como destino certo. Difícil entender se protegem o bairro ou a Starbucks. Já seria muito, mas há mais: na mesma rua já existem dois restaurantes Burger King, um Mc Donald’s e uma C&A. O problema, então, parece não ser com as multinacionais em geral, mas com a Starbucks em específico. Parece ser algo do campo semântico do trauma. Nada a fazer.

Quanto a mim, já me vejo sentado em uma daquelas cadeiras desconfortáveis de madeira, entre macbooks e adolescentes. Estarei lá, relendo meu exemplar de Dimensões éticas do pensamento marxista, do Cornel West, publicado pela Figura de Linguagem, editora negra, com sede em Porto Alegre, e que recebe bem menos atenção dos anticapitalistas locais do que o frappucino da Starbucks. Sei que, do lado de fora, estarão os valentes pensadores que sustentam a Amazon, a Procter and Gamble, e a Nestlé e que leem livros produzidos por editoras com faturamento anual bilionário, mas que não tomam – em hipótese alguma – café da Starbucks. Eles, esses grandes guerreiros de isopor, vão substituir, cedo ou tarde, seus pais no comando das oligarquias locais desse estado racista. E nesse dia perguntarei a mim mesmo, enquanto o meu cappuccino-canela repousa sobre a mesa:

“Quem, diabos, terá quebrado aquela bacia?”

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel

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