Atena Beauvoir: Ele me acordou lendo García Márquez

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Faz tempo que eu não me apaixono. Bem antes da pandemia. Já fui casada. Já namorei antes disso. Mas nenhum desencontro ou encontro me atingiu tanto quando um ficante, lembram a época que ficar era discutido socialmente? Haha, me acordou lendo um trecho de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Mas se não fosse pouco, era em espanhol. Acredito que menos o conteúdo, mas intensamente a língua tornou aquele momento um divisor de águas entre o que eu considero de fato uma relação.

Eu brinco ao dizer que namoro com meus amigos mais próximos e eles sabem disso. E eu sinto esse fluxo de relação pesar pela quantidade de afeto que existe entre nossas falas e olhares e brincadeiras e risadas e cortes nas falas e, às vezes, brigas. Com meus três melhores amigos, eu nunca nem os beijei e nunca transamos. Já tomamos todas até embriagarmos, mas nunca, de fato, tocamos os nossos corpos. É como se no mais íntimo, existisse uma relação de intensidade, profundidade e existencialidade que converge numa relação que não percebo o corpo. Mas a presença.

E se me perguntarem se tenho ciúmes deles? Existia em tempo passado, mas já me acostumava com a ideia de que eu observava a movimentação do meu corpo, eu com 30 anos de idade, já não tendo mais as impressões de quando tinha 15. Não tenho posse de nada, inclusive das minhas relações. Mas minha liberdade é o cerne da responsabilidade, do trabalho e da existência. Essas três fases do meu pensamento se comungam de uma forma tão humana, que como diria Clarice em um conto: ele sempre volta.

E esses três amigos sempre estão por perto. O impacto que eu sinto ao receber mensagens deles é para mim uma alegria imensa. Se nunca tive vontade de os beijar? O medo me fazia agir vacilando a cada contato mais de perto. Obviamente, os abraços e os apertos na fofura de que me toma o coração quando estou próxima deles é uma ponte, mas não gostaria de estar nua na cama com eles, porque minha existência é a nudez única que eles enxergam em mim e talvez, por isso, eu sinta que eles são meus melhores amigos. E semanticamente, os namoros em existência dada e não construída me satisfazem com plenitude.

E não podem ser tidos como irmãos? Pai? Tios? Como uma relação de afeto parental? A humanidade é parente de toda a humanidade. Se não no sangue, no modelo genético que forma a humanidade. E se a parentalidade converte esse nascer em mesmo solo sanguíneo, que dirá o solo histórico que compõem a todo o povo brasileiro a se encerrar nas mesmas histórias do passado movendo nosso obstante presente e logo mais o futuro que já é presente e já é passado.

Quando supera-se a náusea que em Sartre vá literalmente significar a existência ressentida a tal ponto que os objetos a nosso redor se tornam mais vivos e presentes que nossa própria presença e existência no mundo, a gente tende a burlar com o coração as regras ditadas pela mente, mas não pela razão. Mas a literatura, de fato, nos envolve o ser.

A Bíblia até hoje move, no Brasil, onde ela não foi escrita, mas é intensamente interpretada, os corações. O Atkins move as noções da matéria para os futuros químicos. Os físicos são impulsionados pelos labores da energia calculada pelo Halliday. O Livro dos Espíritos é desconhecido por parte dos Espíritas, mas ainda assim os burila. Freire é retratado na Educação como um Santo que tem seus mistérios, quando em realidade, em quase todos seus vinte e tantos livros, ele indica que é vivendo com a própria existência que se constrói o educador e a educadora. E os filósofos outros? E as Filósofas outras? Essa crônica não terminaria jamais de ser escrita se me coubesse citar cada qual.

E o rapaz que me acordou lendo García Márquez? Não tenho mais qualquer relação, senão facebookeana. Mas o ato de ler para mim ao acordar foi, de fato, o ato mais impactante no campo do coração que eu já vivenciei em minha existência de mulher apaixonada. Apaixonada não por homens. Mas por livros. O rapaz se foi. E o Cem Anos de Solidão continua aqui, comigo.

Atena Beauvoir Roveda é natural de Porto Alegre. É escritora e poetisa, professora e filósofa. Em 2016, recebeu Menção Honrosa pela atuação em defesa e promoção da dignidade humana de LGBTs na cidade de Canoas/RS. É colaboradora da Rede Trans Brasil e Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizadora da Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica na área de filosofia existencialista.

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