Fernanda Bastos: Em busca da coerência

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

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Até alguns anos, era comum que eu fosse vista apontando problemas de representatividade em jornais, na TV ou nos catálogos das editoras. Não havia colunistas negros, nem apresentadoras ou repórteres negras. No campo editorial, os autores negros só eram tolerados se fossem estrangeiros.

Continuo achando importante essa patrulha ideológica. E note que utilizo o termo patrulha ideológica porque ele dá conta de um embate intelectual que me inspira. Aqui lembro Beatriz Nascimento, que, em 1996, fez apontamentos críticos sobre o racismo e a misoginia em Xica da Silva, de Cacá Diegues, filme lançado no mesmo ano. O texto crítico sobre o filme, publicado no jornal de esquerda Opinião e repercutido para muito além, foi logo acusado de patrulha ideológica por Diegues. Tempos depois, como registrou o Roda Viva, o cineasta deu razão a Nascimento, tornou-se amigo dela e adotou sua contribuição para outros trabalhos, mostrando que a especialista estava correta. Poucos são os intelectuais brasileiros que admitem, como Diegues, que sem racismo e misoginia sua obra poderia ser melhor. É raro que acreditemos que possamos ser melhores em qualquer coisa em que nos consideramos bons, ainda mais se fazemos parte de grupos privilegiados pelo poder naturalizado. O caso indica, no entanto, que os embates políticos do debate público podem gerar conscientização e não apenas brigas, acusações e cancelamentos.

De lá para cá, o Brasil mudou menos do que gostaríamos; e a patrulha segue necessária. Precisamos visibilizar diversas tentativas de apagamentos. Devemos denunciar os horrores do presidente que nega vacina, dos maus prefeitos que deixam pessoas sem teto morrer no frio, do apresentador homofóbico. Mas também precisamos olhar para as instituições que financiam nossos eventos, para os acionistas do jornal que publica nossas opiniões. A patrulha é vigilante, exige que tenhamos critérios estabelecidos para atos e sujeitos. E exige, sobretudo, coerência. As cobranças não podem ser dirigidas apenas a setores de que gostamos menos, enquanto outros passam ilesos. Não posso exigir que a UFRGS seja menos racista do que a PUCRS; ou que o curso de História tenha mais professores negros que o de Jornalismo apenas porque lá tenho amigos e pessoas que desejam fazer valer seu antirracismo nessas instituições. A conduta de patrulha exige vigilância completa e muita sabedoria para evitar que a crítica não seja vazia ou direcionada somente para quem ideologicamente discorda de mim ou a quem eu simplesmente desprezo por razões subjetivas.

Minha patrulha tem sido cada vez mais dinâmica desde que criei a Figura de Linguagem, junto ao Luiz Mauricio Azevedo, em 2018. Nestes três anos, completados em junho, comecei a acreditar mais no que pode ser feito por nós mesmos e muito menos no que podemos obter por meio de cobranças aos outros. Notem, a cobrança e a denúncia são essenciais, mas é preciso também embasar as razões que justificam nossas cobranças. O que substituirá o que vai mal? Quem ficará no lugar daqueles que, com razão, rejeitamos?

A Figura de Linguagem me mostrou que muitas das cobranças que eu fazia ao mercado – e que eu achava que eram somente justificadas pelo racismo – também eram resultado da falta de recursos e de incompetência. Comecei a duvidar de que o que precisava mudar não era feito porque as pessoas não tinham conhecimento ou compaixão. Já não me interessava o que poderia ser melhor no catálogo das outras editoras, embora eu continue vendo vários espaços majoritariamente brancos, eles não me pertencem; o meu espaço é negro. Não me interessa mais que as capas de livros escolhidas para algumas obras de autoria negra sejam estereotipadas e óbvias. Aquelas sobre as quais eu posso optar não saem desse jeito. As capas da Figura de Linguagem, que fogem desses modelos nocivos, têm sido inspiradoras para diversas pessoas do ramo.

Não me importo mais com o fato de que outras iniciativas editoriais possam se comunicar com soberba e minimizar seus atos de racismo, porque na casa editorial que construí somos antirracistas desde o início. Não queremos folga dessa luta entre uma promoção de livro e outra.

Curiosamente, nesse trio de anos, passei a olhar com mais generosidade para os meus pares, mesmo quando eles optam por buscar no meu campo de luta as ferramentas que eles nunca valorizaram: a mão de obra negra. Nosso trabalho também é pedagógico, em um país em que se crê que é obrigação ensinar o que se sabe com abnegação de super-herói. Aquilo que foi ridicularizado no começo é louvado no momento seguinte. E quem copia, sem querer, acaba por aprovar o que antes desprezou, se alimentando daquilo que um dia rotulou como inútil.

Nesse momento, em que o mercado abraça as trajetórias intelectuais de ativistas negras como Sueli Carneiro e Beatriz Nascimento, temos nova oportunidade de aprendermos com elas. Não apenas sobre como protestar da maneira certa, mas também a dizer não, a romper com as amarras que os outros impõem aos nossos passos e, principalmente, a estabelecer um trabalho que seja a herança do nosso ativismo.

Precisamos realizar aquilo que gostaríamos de ver nos trabalhos dos outros, porque é nosso destino ser um presente para as pessoas que contam conosco.

Fernanda Bastos é jornalista e escritora. É editora-geral da Figura de Linguagem e também servidora pública estadual. Mestranda em Comunicação e Informação (Fabico), é formada em Letras (Ufrgs). É autora de Dessa Cor e Eu vou piorar (Figura de Linguagem, 2018 e 2020).
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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