Luiz Maurício Azevedo: Os canalhas

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

“Autores são apenas autores. Não se deve presumir que sejam tão bons quanto seus textos

Arte não é igreja. E não é razoável que se peça, a quem se dispõe a ler o que quer que seja, um pacto de sangue entre a pessoa que produziu a obra e seu texto. Por outro lado, arte não é inferno. E não é razoável que se peça, a quem quer que por acaso veja você lendo o que quer que seja, um pacto de silêncio em relação a sua odiosa indiferença para com tudo aquilo que tem cheiro de esterco, forma de esterco e textura de esterco. Como ficamos, então? Na mesma, é claro. Fica, digamos, o lido pelo não lido.

Pensemos caso a caso. Tomemos o caso que revirou a cena literária novaiorquina nas últimas semanas: a biografia de Philip Roth, escrita por Blake Bailey. É maravilhosa, pois é uma peça de ficção. Isso não significa dizer que não se possa torcer o nariz e até mesmo puxar a vaia toda vez que Blake se aproximar com sua taça de cabernet. Nada do que possa ser escrito deve merecer uma atenção que se escoa da página para a vida. Autores são apenas autores. Não se deve presumir que sejam tão bons quanto seus textos. Tampouco se deve impedir que promotorias, coletivos feministas ou hordas de canceladores façam aquilo que tem que ser feito. Para o cidadão, a lei; para a autoria, tudo. Cada um com suas perebas.

Roth continuará sendo lido porque é um autor estupendo.

Monteiro Lobato é lido cada vez menos, porque, ao contrário de Roth, não há em Lobato salvação nem no texto nem na ética de seu texto, onde o racismo e o provincianismo escapam pelos poros. É um cálculo mesquinho esse, eu sei. Mas é o cálculo que todos fazemos. Freud, Stein, Céline, Schoppenhauer, Pessoa, Marx, Nietzsche, Foucault, Heidegger e Sontag têm acesso livre à minha cabeceira. Amo-os como se ama a tudo aquilo que é uma ideia: de forma desesperada, mas não necessariamente cega. Nenhum pede que eu minta por eles, que os salve das mancadas. E nenhum merece que eu suspenda meu senso moral em nome do que eles fizeram pela evolução do meu pensamento. Gratidão intelectual não é serviço social. Os critérios que usamos para escolher o companheiro ideal para o café não podem ser os mesmos que usaremos para quem vai ocupar nossa estante.

Às vezes, tenho a sensação de que as pessoas gostam mais dos temas do que dos textos. Grosso modo, estão mais interessadas no que está sendo dito e não em como está sendo dito. Sai a forma e fica o conteúdo. A literatura se torna uma espécie de dispositivo de controle para quem já não pretende mudar o mundo, mas se contenta em mudar a narrativa. Em um dos contos de o Tradutor Cleptomaníaco, o húngaro Dezö Kosztolányi traz a anedota de um criminoso que, na impossibilidade de elaborar seus crimes no plano concreto, se satisfaz no campo da linguagem: ele rouba as palavras que representam seus objetos de desejo, uma vez que já não pode roubar os objetos em si. É uma linda metáfora dos poderes da linguagem, mas é também um alerta sobre os riscos que a falsificação das materialidades objetivas produz. Disfarçado de ganho semiótico, engolimos muitas alegorias que são, na realidade, modos de anestesiar o dano causado por coisas bem concretas. Por isso, me cansa um pouco que se possa passar a vida perseguindo textos do passado, enquanto no presente louvamos as engrenagens que os reproduzem.

Não trafico influência. Não tento pagar com estética aquilo que é dívida ética. De quem escreve eu só quero saber de sua escrita. E quem eu leio só pode cobrar de mim a leitura atenta do que foi escrito. Mais do que isso não há. Os canalhas – talentosos ou não – não são bem vindos em mim. Já anotei o nome dos livros. O resto passa.

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos.
Foto: Vitor Diel

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