Fernanda Bastos: Das escritoras que nos alimentam

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre sobre ilustração de Aline Daka

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A vida cultural é intensa nos nãos. No que se refere às oportunidades, não é incomum que nossas políticas públicas falhem em dar conta de todos os projetos importantes para o desenvolvimento de nossos artistas, produtores e agentes culturais. Nem sempre o poder público consegue acolher as iniciativas de seu povo e, é preciso considerar que seu discurso pode ser contrário a ele. Os editais não atendem todas as necessidades de produção. E as entidades culturais não possuem o orçamento — ou o compromisso com a diversidade — com que sonhamos.

A arte nos ensina que é preciso criar espaços para acolher a produção que valorizamos. Dia desses assisti a um belo documentário sobre Peggy Guggenheim, que sobrevive à posteridade pelo conjunto de obras que reuniu e financiou para o mundo. Embora ela fosse membro da aristocracia nova-iorquina, essa coleção não foi conquistada por herança. A curadora se educou para formar um conceito de arte que lhe interessasse e soube aproveitar os efeitos da precariedade produzida pela Segunda Guerra para montar uma cena da qual se tornou entusiasta. Pessoas como ela, que possuem recursos para investir no que desejam reconhecer como arte, continuam existindo, com ou sem o apuro estético da Guggenheim. Quem cai nas graças desses mecenas modernos adquire um futuro seguro. Os demais ficam com os nãos de que eu falava no início desse texto.

Os outros nãos que ouvimos surgem dos próprios agentes de cultura, pessoas que nos recomendam o que não fazer, o que não é viável, o que certamente não vai ter acolhida. Poucos são os que oferecem soluções, porque isso exige generosidade e conhecimento. As críticas em nosso meio muitas vezes são fantasias para a admoestação conservadora.

Sempre acreditei na palavra de Maiakovski, para quem “Sem forma revolucionária não há arte revolucionária”. Mas até onde vai nossa forma revolucionária? Ela se esgota no papel? Ela se cala quando percebe que é sustentada por um esquema que rejeita tudo que ela celebra?

É comum ouvir gente querendo menosprezar quem financia o próprio projeto artístico, como se fosse uma vergonha. Sobretudo entre nós que não nascemos em berço de ouro, e precisamos escolher para comprar. Muitas são as pessoas que se acostumam a ser financiadas por grandes empresas, mas acusam os pequenos, que não possuem financiamento, de ridículos. Elas navegam nas mesmas águas, só que enquanto uma rema mais devagar no seu barco pequeno e sem luxos, a outra cruza gritando que é mais rápida, quando na verdade possui motores mais velozes graças aos verdadeiros donos dos barcos que as conduzem, pessoas mais brancas, mais ricas, mais poderosas.

Recentemente aconselhei um amigo a financiar o próprio projeto gráfico de seu livro. Foi uma ideia estranha para ele, que achava que financiar o próprio projeto faria com que ele fosse considerado menor. Lembrei a ele de que, mais do que a aceitação e o investimento da editora, ele, que possui renda fixa, desejava compartilhar seu trabalho com leitores. Ele havia procurado editoras, mas nenhuma havia se comprometido com a publicação de seu texto. A pandemia e os parcos recursos das pequenas editoras fizeram com que as escolhas fossem cada vez mais exclusórias, uma vez que cumprir o que já foi acordado se torna mais importante do que produzir novas promessas.

Por outro lado, as grandes, que possuem mais recursos e também mais obrigações com financiadores, tampouco estão abertas a projetos desse tipo, puramente experimentais e de gente sem fama no meio. Depois de investir no próprio trabalho, meu amigo percebeu que, mais importante do que ter o trabalho reconhecido era ter o trabalho na rua, perto de como ele havia concebido.

É terrível admitir, mas não há financiamento, público (sobretudo) ou privado, para toda a arte produzida no planeta. Por isso nós precisamos achar formas de investir em nossas trajetórias, para que elas não sejam vítimas dos desejos do mercado ou dos mecenas quando somos preteridos.

Recentemente recebi em casa dois livros, fruto de financiamento coletivo, que me fizeram pensar sobre o financiamento dos projetos na constituição de trajetórias artísticas: Não alimente a escritora, de Telma Scherer (editora Urutau), aborda a trajetória da escritora e artista. Na obra ela rememora e medita sobre a performance que realizou durante uma Feira do Livro e que levou à sua detenção. É um livro corajoso e inspirador, em que a autora olha para o acontecimento em perspectiva, inclusive aludindo a sua proximidade com outros casos de abuso policial e com as violências do mercado editorial. A obra faz pensar sobre a forma como o meio literário afasta o tema da precariedade e da pobreza, sobretudo em um corpo social que valoriza mais a chegada do que o trajeto.

Não alimente a escritora foi produzido por meio de financiamento coletivo, assim como Mulheres caídas, de Aline Daka. A HQ foi constituída em um período da vida acadêmica de Daka, e bafeja perfis de mulheres que apontaram um caminho artístico para nós que viemos muito tempo depois. Com trabalhos como de Scherer e Daka, temos a chance de aprender sobre a importância de criar espaços de produção com a mesma dedicação com que nos empenhamos sobre nossas técnicas e discursos. Um dos desenhos da obra destaca “Nunca seremos artistas, estamos ocupadas demais”, sobre a imagem e os versos de Diane di Prima da sua série Revolutionary Letter. Em meio aos ativismos, aos entraves machistas, LGBTfóbicos, classistas e racistas que tanto nos desejam silenciar, devemos criar espaços para a criação artística. Precisamos gastar tanto a nossa energia com a denúncia daquilo que queremos enfraquecer quanto com a construção daquilo que queremos que seja forte.

Fernanda Bastos é jornalista, tradutora e editora de livros, mestra em Comunicação pela Ufrgs. Desde 2018 atua como CEO da Figura de Linguagem, editora negra e independente sediada na capital gaúcha. Publicou os livros de poesia Dessa cor, em 2018, e Eu vou piorar, em 2020. Atua como apresentadora na TVE RS e como produtora de conteúdo na Plataforma Feminismos Plurais.
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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