Luiz Maurício Azevedo: Da destruição

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

“O papel histórico da literatura nacional tem sido, ao longo dos séculos, o de construir os laços que nos unem, quando na verdade deveria ser o de destruir

Odeio ter que sair por aí afirmando convicto coisas que me parecem verdade porque, afinal, aquilo que nos parece verdade raramente é verdade para outros. E quando se descobre isso é tarde demais para estabelecer qualquer reparação naquilo que nossa ignorância convicta fez aos outros. Todavia, ganho a vida em duas chaves: dizendo o que penso e tentando traduzir para os outros o que outros pensaram melhor que eu. Então, abraço com nariz torcido minha insignificância moral e sigo repetindo aquilo que me parece ser um exercício de construção de um cenário social onde a destruição seja conceitualmente produtiva. Explico: o papel histórico da literatura nacional tem sido, ao longo dos séculos, o de construir os laços que nos unem, quando na verdade deveria ser o de destruir. O Brasil precisa ser destruído porque o Brasil, como projeto civilizatório, foi construído mediante extorsão, sequestro e apagamento.

A partir da eleição de Jair Bolsonaro, tivemos que assistir diariamente ao espetáculo fétido do conservadorismo de extrema direita (que logo será substituído, com o meu voto desesperado, pelo conservadorismo dos grupos de centro-esquerda). Não tenho vergonha de comparar Lula a Bolsonaro. O exercício do discernimento, sob todos os aspectos, nos conduz ao juízo inevitável de que com o primeiro é possível discordar, divergir e viver; já com o segundo, se morre, se cospe, se deseja o fim da vida pública. Assim, em 2022 Lula voltará a ser a minha esperança, embora eu não espere nada dele além da simples evidência de ele não ser Jair Bolsonaro. Embarco nessa canoa porque o mundo de Lula é um mundo melhor para quem escreve e a literatura que interessa precisa se posicionar contra aquilo que impede a destruição do tártaro que coloniza sua força vital. Uma coisa é agredir os valores de quem lê, provocá-los ao limite de suas sustentabilidades ideológicas. Outra coisa, bem diferente, é alimentar as pulsões de morte dos outros, seus Thanatos de estimação. É preciso ter sempre em mente a diferença lógica entre nossa habilidade de construir uma cena em que o protagonista morre, depois de uma noitada de speedball, Jack Daniel’s e jazz… e o ato de enterrar um amigo que morreu após uma noitada de speedball, Jack Daniel’s e jazz. Uma literatura que fomente a confusão entre esses dois extremos não é literatura corajosa, é delírio.

É claro que se pode gostar do que se gosta, sem ter qualquer compromisso com a realidade factual. E se as pessoas podem dar as costas para a lógica, por que haveriam de se importar com os os conceitos de literatura de um crítico heterodoxo? Quanto às decisões alheias, não há nada a fazer, exceto lamentá-las. Por isso, meu sonho era destruir tudo o que existe. Obliterar. Anular. Banir. Extinguir. Aniquilar. Erradicar. Abolir. Eliminar. Contudo, minha realidade é outra: construir cada coisa que quero ver no mundo, todos os dias. Cada Sísifo tem a condenação que merece. Pego minhas forças e subo universo acima. E muito. E além, porque é preciso somar coisas às coisas para que juntas elas resultem em movimento, o movimento de que tanto necessitamos para finalmente sairmos por aí convictos, afirmando as coisas que sejam, mesmo, verdade.

Luiz Maurício Azevedo nasceu em 1980, na cidade de Cascavel (PR). É editor e professor de literatura. É doutor em História Literária pela UNICAMP e pós-doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recentemente tornou-se vegetariano e passou a acreditar que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Mora em Porto Alegre, com a jornalista e escritora Fernanda Bastos. Foto: Vitor Diel

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