Fernanda Bastos: As bruxas e as poções mágicas

“Muitos especialistas nos levam a acreditar que a escrita é uma habilidade de origem arbitrária. Ou você nasce com ela ou foi condenado ao silêncio. Esse pensamento é nefasto para a sociedade”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre

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Ando mais interessada pelo processo do que pelo produto. Talvez seja por isso que eu comece tantos projetos e deixe tantas abas abertas no computador. Há momentos, sobretudo entre a escrita de um livro e outro, que estimulo, testo novas escritas, propondo a mim mesma uma série de estudos e exercícios. Pesquiso algum tema ou técnica específica por semanas a fio. O resultado nem sempre é compensador. Diversas vezes me frustro. E, apesar dos impasses, insisto na busca que sempre me prepara para um outro texto. Nada contra a noção de dom, mas me tornei pouco simpática a essa ideia por conta do que aprendi com autoras e artistas que admiro. Ficamos fantasiando sobre histórias encantadoras como a de Mary Shelley, que teria gerado Frankstein em uma noite de competição literária saudável com Lord Byron e Percy Shelley. No entanto, esquecemos que a obra foi criada a partir de um exercício proposto por Byron, que valorizava a função do exercício e da obsessão criativa para a produção textual.

Pensamos demais no talento e pouco na prática, que é inerente ao ofício. Muitos especialistas nos levam a acreditar que a escrita é uma habilidade de origem arbitrária. Ou você nasce com ela ou foi condenado ao silêncio. Esse pensamento é nefasto para a sociedade e, ainda mais, para as artes. Muitas de nós deixamos de escrever porque acreditamos demasiadamente na existência dessa poção mágica.

Quando dava aulas de redação e português, presenciava com frequência o sofrimento de estudantes, que se comunicavam oralmente com facilidade, mas sentiam tremenda dificuldade de expor qualquer ideia em um texto escrito. Eles acreditavam que não possuíam o dom da escrita. E, por conta disso, se afastavam da dor da prática, afinal, ela lembrava a eles outras dificuldades ainda maiores que eles possuíam em outros campos. E quanto menos praticavam, menos avanços percebiam em seus textos. Era angustiante ver a frustração daqueles que não saíam de três ou quatro linhas. Eles se irritavam com a demanda, olhando para o papel em branco como se a folha tivesse mais o que dizer do que eles próprios. O espaço vazio ocupava todo o espaço que poderia ser de experimentação e descoberta.

As oficinas que fiz comprovaram, para mim, esse papel fundante do exercício para a prática da poesia. O poema Jota Martins, que está em Dessa cor, foi criado em uma oficina de Angélica Freitas, assim como a versão editada. Foi também nos encontros com Freitas que percebi a importância de dessacralizar a circulação do texto e o objeto livro. Poema de influência, que também aparece em Dessa cor, foi gerado após um exercício de aula em meu tempo de letrista e aluna de Regina Zilberman. Já Imperadores, que está em Eu vou piorar, foi criado a partir de um exercício proposto por Conceição Evaristo.

Quando me deparo com uma produção inspiradora, ela produz em mim um desejo ainda maior de escrever. Mas nem sempre foi assim. Lembro que diversas vezes, quando lia algum texto de que gostava, sentia que nada mais precisava ser escrito, sobretudo por mim. Era como se um texto representasse toda a Biblioteca de Babel. Eu olhava para sua imensidão e me recolhia como autora. Hoje, possuo outra relação com a escrita. E não que seja mais pacífica. Apenas compreendo que é preciso praticar, mesmo quando o que se quer dizer ainda está obscurecido ou parece insuficiente.

Quanto mais se produz, mais próximo se chega da recriação da linguagem, que é nosso primeiro aprendizado. E a prática é a ferramenta que nos permite seguir desenvolvendo essa capacidade. Se não praticamos, se não nos colocamos à prova, como podemos esperar que nos reconheçamos em nossas palavras?

Em Porto Alegre, o Atelier Livre, recém-chegado aos 60 anos, é um exemplo para as outras linguagens, carentes de espaços para a prática de seu ofício. Iberê Camargo costumava dizer que que o Atelier Livre era um local para estimular a prática artística, no qual a mera busca por um diploma não fosse o objetivo norteador. Note, essa concepção não é uma louvação do antiintelectualismo – esse mal que expõe a dor dos recalcados – e nem quero sugerir que a formação acadêmica seja desimportante, até porque quem ensina passa por formação sólida nas escolas de arte e universidades. A questão aqui é outra: colocar a prática no centro de nosso ofício.

Para a minha trajetória, acompanhar a prática artística tem sido um processo tão valioso quanto o testemunho do ofício, que é o texto. Abraçar as pulsões e os desejos que nos proporcionam o encontro com a própria linguagem é essencial para que produzamos a linguagem que ainda não existe, a linguagem de que precisamos. Não podemos desistir. Aquilo que desconhecemos sobre nós pode ser precioso.

Fernanda Bastos é jornalista, tradutora e editora de livros, mestra em Comunicação pela Ufrgs. Desde 2018 atua como CEO da Figura de Linguagem, editora negra e independente sediada na capital gaúcha. Publicou os livros de poesia Dessa cor, em 2018, e Eu vou piorar, em 2020. Atua como apresentadora na TVE RS e como produtora de conteúdo na Plataforma Feminismos Plurais.
Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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