Fernanda Bastos: Potes de ouro

“Há uma sugestão recorrente de mergulharmos em uma competição pouco saudável com estrelas de Hollywood, músicos do Rock in Rio e outras criaturas do showbiz. Mas, somos, afinal, produtores de literatura e, talvez, artistas

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Quem deseja conduzir um percurso artístico deve se perguntar, em algum momento da caminhada, que tipo de reconhecimento está buscando. Se são milhares de livros vendidos. Se são fandoms apaixonados, que impeçam ou ao menos segurem a barra dos desdobramentos do seu cancelamento. Se deseja vencer todos os editais. Se quer encontrar o grande amor em decorrência do amor por sua arte. Se deseja ser convidado para uma residência artística em Praga ou Milão. Se quer receber uma ligação do Roberto Carlos sugerindo para compor com ele.

Algumas dessas metas são conjunturais, por mais terrível que seja admitir. Mesmo tendo treinado muitas vezes o que diria, jamais terei a honra de responder a Antônio Abujamra se acho que foram os bancos ou a Igreja que mais fizeram mal à humanidade. Também não consegui marcar meu nome para ser recebida em Arte com Sergio Britto, e vê-lo recitar meus versos. E falo dos saudosos, mas há aqueles que ainda vivem, como Jô Soares, e que já nem possuem programa para me arrancar uma boa risada depois de uma tirada inteligente.

Evoco essas personalidades célebres da cultura para mostrar como vivemos imersas em um enredo que nos convida a interagir com o que não é palpável. Há uma sugestão recorrente de mergulharmos em uma competição pouco saudável com estrelas de Hollywood, músicos do Rock in Rio e outras criaturas do showbiz. Mas, somos, afinal, produtores de literatura e, talvez, artistas. Nos dois casos, nosso alcance é limitado, uma vez que vivemos em um país de poucos leitores e em que são contáveis as artistas que podem se vangloriar de receber reconhecimento em vida.

Arriscado é relacionar nosso projeto artístico a aquilo que está fora dele mesmo. Posso lançar um bom livro em que acredite que realizei um excelente trabalho. Por outro lado, por mais investimento que faça nesse título, não há como garantir — pensando no universo independente — que ele será justiçado, que ganhará prêmios e que me levará ao estrelato. Se for lida por algumas pessoas, mas significativas, como minha mãe e minhas amigas, isso será pouco? Se apenas notarem minha literatura quando houver lançamento, por notícias na imprensa independente — que luta de forma desigual por espaço como eu —, será suficiente, ou ficarei à caça de quem não me deu manchete? Esse é o tipo de questionamento que devemos fazer a nós mesmas, tanto para evitar mágoas quanto para aumentar a honestidade com o nosso trabalho e com o que desejamos que ele seja para nós mesmas e para quem nos acompanha.

Em As vantagens de ser uma artista mulher, as Guerrila Girls elaboram uma lista eloquente de marcadores sociais que se repetem na experiência de artistas mulheres. Entre eles, estão algumas pérolas sobre o reconhecimento: saber que sua carreira pode decolar quando você tiver oitenta anos e ser incluída em versões revistas da história da arte.

O primeiro item me lembra que não devemos acreditar demasiadamente no reconhecimento alcançado em vida, pois ele é efêmero tanto para o bem quanto para o mal. O segundo, que quem julga nosso papel como artistas pode estar equivocado, e pior, que podem mudar de ideia sobre isso sem que anulem ou se responsabilizem pelas nossas penúrias financeiras, pela solidão e pelo auto- ódio. Difícil saber quantas artistas desistiram ou mudaram a rota antes dos 80 anos, tentando agradar os pares ou a essa multidão virtual insondável de apreciadoras que muitas desejamos ter. Recentemente, li uma apresentação em que o prefaciador buscava fazer ajuste de contas para uma autora que ele considerava injustiçada. O autor mencionava que ela havia sido publicada em uma coleção importante em seu tempo, mas sugeria que a decepção com as rodas literárias havia dirigido seu interesse para outras linguagens. Enquanto lia aquele texto, pensava se a autora, quando falava em reconhecimento, estava se referindo às mesmas imagens que o prefaciador. Será que ela havia se decepcionado com a falta de reconhecimento dos pares, da crítica, dos leitores? Será que lhe incomodaram a falta de aplausos, de prêmios, de propostas de grandes editoras? Será que sua decepção era de ordem estética, por entender que não conseguia se comunicar e que era mal compreendida? Será que tinha problemas com seus pares, que julgavam seu trabalho pelas costas e riam em conversas privadas de sua produção, e que até a boicotavam? Impossível descobrir nesse caso. Mas é certo que mais fácil é fazer justiça referente a erros do passado do que enfrentar as injustiças do tempo presente.

Venho acompanhando a transformação em acontecimento de homenagens póstumas também nas universidades, e percebendo como não só a classe dos artistas é afetada pela mensuração do talento somente depois da morte. Quando concedemos prêmios e láureas a pessoas mortas, é como se pudéssemos apagar o passado para fazer justiça. Assim fez a USP, que concedeu a Luiz Gama um título de doutor honoris causa. Ainda antes da abolição, Gama conquistou sua liberdade e tentou ingressar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde não foi admitido. Possivelmente, se fosse um viajante no tempo, Gama tivesse dificuldade de ser admitido na USP de um século depois também, e até mesmo após a implementação cheia de ressalvas das cotas raciais por essa universidade. Mesmo com o notável árduo trabalho pela libertação de diversos cativos e pelo embate que ele travou na imprensa, Gama não obteve os títulos condizentes com os feitos do seu tempo. Nem todos os seus pares também foram justos com o contemporâneo. Para os aplausos de hoje, resta saber se é realmente a Gama que servem as distinções do presente?

Alguns dizem que estamos reinventando o futuro. Mas me pergunto se, mais uma vez, talvez não estejamos apenas repetindo os mesmos erros que apontamos na crítica, nos pares, na imprensa e nos artistas do passado. Um passado reformado, um presente de injustiças e um futuro pronto para ser revisado.

Fernanda Bastos é jornalista, tradutora e editora de livros, mestra em Comunicação pela Ufrgs. Desde 2018 atua como CEO da Figura de Linguagem, editora negra e independente sediada na capital gaúcha. Publicou os livros de poesia Dessa cor, em 2018, e Eu vou piorar, em 2020. Atua como apresentadora na TVE RS e como produtora de conteúdo na Plataforma Feminismos Plurais. Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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Uma resposta para “Fernanda Bastos: Potes de ouro

  1. Parabéns, Fernanda!
    Seu texto retrata muito bem a insegurança natural dos jovens escritores, na fileira dos quais me encaixo.
    Essa dicotomia comum entre escrever o que me faz bem e quantos terão acesso a minha obra, torna, na minha opinião, essa discussão mais importante.

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