Fernanda Bastos: Good goodbye

“O amor que sinto pela literatura e todas as artes me exige um distanciamento da cena pública, talvez definitivo. Das renúncias que já fiz por esse amor, essa certamente será uma das menos dolorosas

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Desde a criação da Figura de Linguagem, em 2018, me acostumei com ataques. Isso não deveria ser normal na vida de ninguém, mas como jornalista e trabalhadora da cultura, passei a acreditar que poderia merecer ataques em função de minhas tomadas de posição. Esses ataques não se originaram apenas de pessoas insatisfeitas com o teor das críticas que eu fazia aos mercados, mas se alastraram chegando também aos livros que publico e às pessoas que amo.

Após o famoso boom editorial negro — quando a negociata atingiu níveis estratosféricos e as pequenas editoras negras se dividiram entre as rastejantes e as acuadas resistentes — a situação se deteriorou ainda mais. O que antes era um amontoado de acusações levianas fofocadas entre livrarias, cafés e bebericos de pares, tornou-se material para perseguição, por força do discurso ou do poder econômico. Como jornalista e como escritora, sempre andei à margem, trabalhando em pequenos veículos, na comunicação pública ou em mercados independentes. Essa escolha é uma perspectiva de vida, não um meio para chamar a atenção dos sharks.

No último ano, acompanhei as dezenas de plágios de textos meus, a divulgação de minhas ideias sem o devido crédito — ao Literatura RS e a mim —, acreditando que a falta de dignidade no meio teria fim. E claro que, a essa altura, já deixei de acreditar que o ódio e o ressentimento sejam reflexos do embate às minhas ideias. Sei hoje que há apenas o desejo de vitória de um campo cultural néscio, viciado, desonesto, colonial, amante do capitalista rebelde de butique e anti-arte. O que fazer, então?

Livros. Isso mesmo, percebi que não existe mais existência saudável na cena pública enquanto houver a normalização e a aceitação desse ambiente do vale-tudo dos crowdfundings de cartas marcadas, da higienização dos sotaques fora da validação do sudeste, dos super markets assassinos, dos revolucionários patrocinados por bancos, dos críticos destemidos da pena da falicofilia. Não quero mais apontar as mentiras nem desvelar as notícias falsas dessa arte que nos une aqui. E, bem, será mesmo que nos unimos por ela? Nem quem produz literatura tampouco aquelas pessoas que se dizem defensoras dessa arte parecem estar dispostas a lutar pela bibliodiversidade. Mal pesquisamos sobre quem quer colocar veneno no nosso prato, que me dirá sobre quem quer envenenar nossa literatura. Basta ver como continuamos mais dispostos a dar curtidas em postagens de apoio do que a comprar livros fora da estante dos “mais vendidos”. A vitrine e a propaganda venceram. Os fatos dispensam argumentos.

Como em outros anos eleitorais, desejo que minha energia seja investida no combate a forças que criaram esse cenário de danação. É mais nas ruas e menos nas redes que farei esse enfrentamento.

Ademais, o amor que sinto pela literatura e todas as artes me exige um distanciamento da cena pública, talvez definitivo. Das renúncias que já fiz por esse amor, essa certamente será uma das menos dolorosas.

Com imensa generosidade, o editor do LRS me incluiu nesse portal, que ele o conduz, junto do Giovani, com entrega, honestidade e retidão. E é em respeito a eles que comunico esse hiato.

De empréstimo, saco do livro Mulheres Caídas, de Aline Daka, a ideia de que “elas não vieram para nos ensinar”. Porque eu recuso o papel de pedagoga de meus leitores e leitoras. Daqui para a frente, nos encontramos em leituras públicas e nas páginas dos meus livros. Que tenhamos aquilo que buscamos na mesma medida dos esforços que fazemos.

(Ah, e mais uma vez, muito obrigada, Vitor e Giovani, a gente se vê no lugar de sempre.)

Fernanda Bastos é jornalista, tradutora e editora de livros, mestra em Comunicação pela Ufrgs. Desde 2018 atua como CEO da Figura de Linguagem, editora negra e independente sediada na capital gaúcha. Publicou os livros de poesia Dessa cor, em 2018, e Eu vou piorar, em 2020. Atua como apresentadora na TVE RS e como produtora de conteúdo na Plataforma Feminismos Plurais. Foto: Pedro Heinrich/CRL.

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