‘Espinhos’, de Cécile Coulon, entrega o melhor da poesia contemporânea francesa

Livro premiado de uma das principais autoras da literatura contemporânea francesa é publicado pela primeira vez no Brasil

Edição: Vitor Diel sobre texto da assessoria
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Chega ao Brasil o livro vencedor do mais importante prêmio de poesia da França, uma façanha até então inédita para uma estreia: em 77 anos de existência essa foi a primeira vez que o respeitado prêmio Apollinaire foi para uma poeta estreante, Cécile Coulon, com o seu livro Espinhos (Les ronces), que a Isto Edições traz agora em edição bilíngue.

Geralmente reservado a nomes mais tradicionais e conservadores (leia-se também: mais velhos), a premiação colocou a escritora nascida em 1990 sob os holofotes do palco da literatura europeia, dando destaque a uma carreira que havia começado aos seus 16 anos — em 2018, quando lançou Espinhos, ela já tinha seis romances publicados (alguns premiados). Foi com esta sua primeira obra poética, no entanto, que a escritora ganhou espaço nos meios de comunicação franceses — e as estantes dos leitores, mesmo os não acostumados a ler poesia.

Cécile recebeu destaque além da mídia literária, como nas revistas Marie Claire (que a considerou uma das principais vozes femininas renovadoras da poesia no mundo, junto com Amanda Gorman e Rupi Kaur, por exemplo, embora com estilos bem diferentes), Elle e GQ, e nos jornais Le Monde e Le Figaro, todos destacando sua relevância para uma nova poesia francesa ligada à escrita da vida cotidiana, com uma linguagem imediatamente acessível.

Poeta enfrentou a oposição de seus pares

Não foi sem protestos, no entanto, que o Apollinaire e, pouco antes, o prêmio de revelação da tradicional associação de escritores Société des gens de lettres (fundada em 1838 por Balzac) chegaram até Cécile — muitos nomes levantaram-se contra as premiações a ela, que também vinha de uma vivência das redes sociais: seus poemas primeiramente eram publicados em sua página do Facebook. Assim, como principal expoente francês de uma geração de poetas para quem as ferramentas digitais são muito mais naturais e para quem a cultura mainstream também faz parte do ato da escrita, Cécile ganhou destaque e incomodou (e incomoda) uma parte do panteão dos grandes nomes da literatura francófona.

Seus textos poéticos têm singularidades de seu estilo que incluem uma perspectiva melancólica, explorando uma existência distante das metrópoles, com um olhar voltado a reminiscências interiores e geralmente sem toques políticos embora afiando os versos com sua voz de mulher frente ao mundo.

A autora é natural da região da Auvérnia, interior da França, onde vive mesmo depois da fama, recusando-se a mudar para a capital – muitos dos seus poemas nasceram, inclusive, na viagem de algumas horas de trem que separa Paris da sua cidade. Nesta sua região também ficam as montanhas da aldeia de Eyzahut, que ela tão bem nos apresenta em dois poemas do livro: “Não esqueceremos mais Eyzahut”, publicou o jornal Le Figaro.

Com Espinhos, ela vem nos mostrar sua maestria em mesclar poeticamente situações corriqueiras com profundas observações que perpassam relações pessoais, lembranças do passado e uma visão única que mescla força e sensibilidade.

Cécile, que já disse ter mais fantasmas do que experiências de vida, declarou em 2021: “Tenho 30 anos, quatorze dos quais passei escrevendo livros. O que faço dos meus dias cabe num Post-it: ler, escrever, correr. O que vive em mim não é o que vivo, mas as histórias dos outros, e as coisas ancestrais, atávicas. Um mundo de experiências não vividas me é oferecido, infinitamente mais rico do que o que vivo.”

Mesmo na poesia, seu modo de escrever ainda é, muitas vezes, o de contar histórias, em poemas longos e mais narrativos que deixam transparecer as memórias, os amores, as emoções e os silêncios, como no poema inicial de Espinhos, o aparentemente banal “Eu gostaria de lhe oferecer as fritas”, que se revela uma mordaz observação sobre um fato corriqueiro em uma noite chuvosa e tudo o que ele desperta (veja leitura desse poema Katia Suman no canal da editora no YouTube: www.youtube.com/@istoedicoes).

Na entrega do Apollinaire, o júri, através do discurso do escritor franco- marroquino Tahar Ben Jelloun, declarou que Cécile tem “um olhar terno e exigente lançado sobre o real. É uma poesia de audácia e emoção nascida de imagens inesperadas, belas, fortes e cotidianas, mas um cotidiano interior, pensado, sonhado, inventado por uma jovem que ama a vida e lhe presta homenagem com verdade e música”.

A tradução para o Brasil é de Diego Grando, professor e poeta gaúcho. A capa traz imagem do artista suíço Reto Visini. A edição contou com apoio da Embaixada da França no Brasil através do seu programa de incentivo à tradução.

Confira abaixo o trecho de um dos poemas presentes em Espinhos.

DIFÍCIL

Quero te dizer que é difícil
construir alguma coisa nova
da qual você não faça parte:
não é culpa tua, apenas
eu é que não sou forte o suficiente
para nos carregar, nós dois.
Quero te dizer que é difícil
admitir que amo você,
meu amor por você é persistente e silencioso.
Nós nos parecemos demais:
temos as mesmas formas de ficar furiosos,
temos as mesmas formas de não responder,
temos as mesmas formas de desaparecer
e somos da mesma maneira
adoravelmente impertinentes e tão bonitinhos
e engraçados, é claro.
Quero te dizer que é difícil
fingir que você não existe.
À medida que envelheço, sei que os meus medos vão me cegar,
que eu ficarei paralisada de angústia, incapaz de pronunciar
determinadas palavras, incapaz de rever determinadas pessoas,
incapaz de me deixar levar por determinadas emoções,
incapaz de tantos atos que seria preciso outro poema
para listar todos.
Então estou escrevendo essas coisas aqui para, quando chegar o dia, me lembrar
que eu tive na minha juventude a possibilidade da linguagem.
Quero te dizer que é difícil
amar você como eu amo
sem uma palavra, sem um gesto de carinho, com essa poça
suplicante no fundo dos olhos e essa raiva na beira dos lábios.
(…)

Sobre a autora
Cécile Coulon nasceu em 1990 em Clermont-Ferrand, Auvérnia, na França. Em poucos anos teve uma ascensão fulgurante. Publicou já diversos romances — o primeiro com 16 anos —, entre os quais se destacam Trois saisons d’orage, Prêmio dos Livreiros em 2017, e Une bête au paradis, prêmio literário do jornal Le Monde em 2019. Em poesia, depois de Espinhos (Les ronces) publicou também Noir volcan e En l’absence du capitaine.

Sobre o tradutor
Diego Grando, poeta e professor de literatura, doutor em Letras pela UFRGS. Autor de quatro livros de poesia, recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura com Spoilers (Confraria do Vento, 2017). Faz parte do elenco do Sarau Elétrico, tradicional evento de literatura de Porto Alegre.

Sobre a editora
A Isto Edições é uma editora independente do Rio Grande do Sul que surgiu e segue com a ideia de publicar livros de poesia — valorizar a poesia contemporânea brasileira, trazer ao país livros de outros lugares do mundo e resgatar alguns clássicos. Completando dois anos de existência, tem lançado livros inéditos no Brasil de poetas ganhadores do Nobel de Literatura.

Espinhos (Les ronces)
Cécile Coulon, trad. Diego Grando
224 p.
R$ 54
Isto Edições
Compre aqui

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Avatar de Literatura RS
Literatura RS

Deixe um comentário