Ana Paula Cecato: Retratos de aulas nada canônicas de Literatura

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Literatura é uma arte que não se ensina, se transmite. (Michèle Petit)

Aula 1

A pergunta veio de supetão, depois de lermos, em voz alta, alguns contos de Simões Lopes Neto e de ouvirmos Vitor Ramil:
– Como é que eu aprendo a gostar de ler?

Senti a pergunta como um pedido de ajuda.

– Tu gosta de quê?

– Eu gosto de desenhar…

A turma ouviu a nossa conversa, e vários me contaram das suas frustradas experiências com a leitura de literatura, e de suas preferências de vida.
Saí da sala inconformada, precisava fazer alguma coisa por eles. Minha cabeça começou a fervilhar ideias, capas de livros, nomes de autores, e eu ali, longe da minha casa, dos meus livros, louca pra carregar minha biblioteca e emprestar meus livros. Não podia, a não ser na semana que vem, quando retornaria à casa.

Nesta semana, as aulas estão canceladas devido ao coronavírus. Vou lhes mandar leituras digitais, paciência.

Aula 2 

Primeira aula de literatura da turma: conceitos iniciais.

Escrevi no quadro “Felicidade clandestina” e lhes pedi hipóteses sobre essa expressão. Surgiram várias histórias: um amor secreto, fazer algo ilegal que dá prazer, achar uma nota falsa… Em seguida, lemos juntos Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector. Solicitei aos alunos que marcassem no texto os trechos que lhes parassem literários, sem lhes dar qualquer explicação do que seria isso. Ao lerem os excertos, foram justificando o porquê, e dali saíram os conceitos de ficção, de denotação e conotação, de narrativa, de verossimilhança, de fruição, de arte.

Na aula seguinte, combinamos um trabalho avaliativo de leitura de um livro literário, em que escrevam um comentário crítico sobre a obra. Levei a turma à biblioteca e cada um escolheu o livro de sua preferência (considerando vários aspectos: gosto pessoal, rotina de vida, fôlego de leitura), e, quando pediram, dei algumas dicas.

Apresento dois cenários que mostram muito bem o que eu já pensava quando dava aulas no Ensino Fundamental: não basta formar o leitor, é preciso formar o perfil de leitor. Um leitor que se reconheça como tal, que saiba fazer escolhas, que compreenda a linguagem literária na sua possibilidade e potência plurissignificativa. Um leitor que se desloque pelo discurso literário de outras épocas, de outros costumes, de outros jeitos de olhar e viver a vida. 

Um leitor que, de forma simples e complexa, se permita ser acolhido e desafiado pela experiência de ler literatura.

Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura. Foi jurada do prêmio Jabuti de 2019, na categoria Fomento à Leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

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