Atena Beauvoir: Quanto tempo dura uma leitura?

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Ao ler o título, sinto tantas outras questões.

Quanto tempo dura uma vida? Quanto tempo dura uma revolução? Quanto tempo dura a morte? Quanto tempo dura o sofrimento ou o perdão? Quanto tempo dura a escrita de um livro? Quanto tempo dura a gestação? Quanto tempo dura uma pandemia? Quanto tempo ainda tem os meus irmãos?

Ao passarmos o ano de 2020 a 2021, lembro de várias postagens nas redes sociais onde as pessoas mostravam o tanto de leitura que realizaram naquele ano. Eu me surpreendi, pois eram 30, 40, 50 livros lidos em um período de 12 meses. Eu ri de mim. Pensei, pelos céus, será que perdi algo nesse período que me fez escapar a vontade de ler?! E recordei da última obra que iniciei e não terminei. Uma biografia de Frida Kahlo. Comprei em um balaio na Livraria Baleia, antes da pandemia. Estava em promoção. Imaginem meu ânimo! Li umas 50 páginas e foi o suficiente para me criar uma sensação de vertigem. Impossível que minha mente, minha psique, minha subjetividade conseguisse ir além do que aquela experiência inicial de leitura me provocou. Era como se meu corpo não pudesse se movimentar mais e como se minha vontade estivesse, literalmente, anulada. Algo estava no meu caminho e não sei, ainda, o que é.

Os livros por si só não carregam profundidade. Eles não são imensas cavernas e nós viajantes com tochas investigando um novo mundo nos livros. Nós somos as cavernas a serem investigadas ao longo de cada livro lido. Os escritos são tochas que nos iluminam as paredes internas do ser e vamos, passo a passo, descendo mais profundamente nessa leitura até descobrirmos um penhasco imenso aqui dentro. Os livros nos orientam as viagens em nossas experiências internas. Avançamos a cada instante, página por página, em sentirmos pelo impacto do texto, não pela obra em si, ou pelas personagens, pelas referências históricas e filosóficas reflexivas, mas porque adentramos mais profundamente no que existe escondido em nossa presença no mundo e isso tudo está escondido no que deve ser descoberto ou não.

Não sei quem primeiro produziu um livro escrito nesse mundão todo, mas acredito que, para além do registro de uma memória para que não pudesse se perder no mapa da vida, o texto igualmente registrava essa viagem que impressionantemente, para quem escreve, é um cenário e que mudará para cada leitora e leitor. E a experiência do que se lê, será cada qual, uma referência sempre do que há no mais profundo desse ser.

Quanto tempo dura uma leitura? De certo que marcada por anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos. E o segundo, que é? Um impulso fundamental atômico de césio 133 estabelecido em regras científicas para um modelo padrão de tempo materializado no movimento dos corpos, do Sol aos nossos. Mas a leitura não é a passagem dos olhos sobre o texto. A leitura de fato, para quem se permite ir além do texto, é o contexto de cada leitora e leitor no momento de iniciar uma jornada dentro de si.

Eu ganhei um Kindle, presente adiantado já que faço aniversário em abril, na infelicidade de nascer no mesmo dia que A.H., e demorei horas para entender o funcionamento de algo tão simples. Eu me sinto mais à vontade com sistemas mais complexos. No caso do aparelho que me permite ler livros inteiros sem pesar nada nas mãos ou ocupar espaço sequer, realmente foi um desafio. Alguns livros de estudo, é inegável que preciso-os fisicamente, pois gosto de me deter nos limites de sua presença física. Mas e se eu mudar para a leitura mais habitual com o Kindle? Eu ando pensando até em dar um nome a ele. Ora pois, não existe a Alexia? Pois então deve existir um nome para ele.

Minha mão dói pelo costume de escrever no computador e ficar usando o mouse, horas a fio. Desde outubro de 2020 que não vejo minha mãe e assim continuará. Meu pai e meu irmão também, um ano sem os vê-los. No fim das contas, meus livros têm sido minhas reais companhias. Porque são físicos, ocupam espaços e eu os vejo ali. Durmo e acordo e a luz da rua adentra as frestas da janela e os ilumina. Amanheço encarando suas diversas cores e sorrio. Já o Kindle fica encarando-me soturno e aquitado. Não me provoca sorrisos. Fico séria ao vê-lo. Tenho seriedade com livros físicos, mas uma seriedade que eu sinto prazer em permanecer ali. Com o Kindle, queria não permanecer tanto tempo com ele. Talvez isso torne mais movimentada minha leitura. Ou não, mas sinto que em breve vou descobrir.

E sobre quanto tempo dura uma leitura, eu diria que dura o tempo de ler a si mesmo, pode parecer estranho, mas nós somente fechamos um livro, mesmo não tendo mais páginas para se ler, mas ele continua sendo lido por nós, pois agora carregamos em nosso próprio ser.

Atena Beauvoir Roveda é natural de Porto Alegre. É escritora e poetisa, professora e filósofa. Em 2016, recebeu Menção Honrosa pela atuação em defesa e promoção da dignidade humana de LGBTs na cidade de Canoas/RS. É colaboradora da Rede Trans Brasil e Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizadora da Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica na área de filosofia existencialista.

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