“Uma vontade me guiava interiormente a pegar emprestado da biblioteca da Sociedade Espírita, e muitas vezes escondida, para na semana seguinte devolver totalmente lido”
Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio
Divagando nas redes sociais, em especial no instagram que permite coloquemos um link para as pessoas enviarem mensagens anônimas aos stories e a gente responder sem saber de fato quem estava do outro lado questionando, um anônimo me enviou tal questão:
“Por ser uma mulher trans, como tu consegue lidar com os preconceitos? De onde tu tiras forças para seguir na luta?”
Diante de tantas perguntas feitas por aquele mecanismo, essa foi a que mais me fez refletir sobre minha posição no mundo. Não precisa ser uma pessoa trans (mulher trans, homem trans, transmasculino, não binário, agênero) para reconhecer que como se uma áurea nos envolvesse o corpo social e a cada instante uma pedrada de insultos se levanta sobre nós, população trans. Mas a pergunta me fez ir além. Como eu sustentava o fôlego imersa nessas águas profundas da vulnerabilidade que começa no isolamento e termina na morte do corpo esquecido e sem família?
Não existem comparações cabíveis com o que é sofrer preconceitos e suas materializações nas diversas formas de discriminações em sociedade. Tudo parece muito subjetivo, muito ilusório, muito passageiro, muito fugidio ao toque, mesmo tendo recebido um soco, uma correntada ou uma facada ou somente olhares risonhos e circenses, minutos depois a ação parece tornar-se diáfana.
Nunca fui escritora de carteirinha. Nunca frequentei um espaço fixo para lá produzir minhas reflexões e idealizações de um conto, de uma obra, de uma história. Eu mesma a vivia e seria exaustivo capturar do ar, as centenas de dezenas de detalhes que se apresentavam aos meus olhares, ao do corpo físico e ao do corpo do coração. Entre a indisciplina e a falta de maturidade, um universo que se descortinava à minha frente e permanecia invisível a todos à minha volta. Menos a mim. Sensação de ser a única que habitava naquela emoção universal, naquela solidão que classificada como existencial ainda era sólida demais, eu diria que uma sensação de vazio. Um vácuo tal qual carro sem chão ou estrada para trilhar, a vagar sem destino pela imensidão de uma estrada sem espaço.
Anos 2000. Nos mudamos para a rua Demétrio Ribeiro. Aos oito anos de idade escutei pela primeira vez uma aula de Doutrina Espírita para crianças. Para além dos textos tocantes, o convite aos abraços, a canção bela sobre fazer o bem é bom, ao passe que eu observava com um olho fechado e outro aberto quando carinhosa senhora erguia as mãos e permanecia com elas ao redor da minha fronte, ao lanche entre sucos e bolachas, ao convívio todos os sábados como uma aula para além da escola, eu considero o Espiritismo como o grande influenciador de quem eu sou nos dias de hoje e que responde parte do questionamento anônimo.

Deus, imortalidade da alma, reencarnação, pluralidade dos mundos habitados, nada disso me preenchia a visão senão a mediunidade no início da minha relação com essa nova doutrina. Nova pois eu recém a estava conhecendo, mas na época, já existia por mais de um século.
Adentrando ao período chamado de adolescência, minha imersão na leitura de livros espíritas era uma força telúrica, vinha de dentro, como a um ímã entre meu interior e o conteúdo dos livros. Uma vontade me guiava interiormente a pegar emprestado da biblioteca da Sociedade Espírita, e muitas vezes escondida, para na semana seguinte devolver totalmente lido. Muitas tardes e noites eram rodeadas de dezenas de personagens, enredos de humanidade viva, contextos que me permitiam criar uma novela mental com cada história lida.
Até que os primeiros flashes brancos iniciaram suas presenças ao redor do teto. O apartamento onde morávamos era de somente uma sala e um quarto, portanto havíamos dividido a sala com uma estante que não tocava o teto. Minha cama em beliche era do andar de cima. E ao desligar as luzes do ambiente, os vultos vinham como esses flashes de máquinas fotográficas antigas. Algumas discretas, o que me fazia acreditar que as lâmpadas poderiam estar descarregando algum conteúdo elétrico sobrecarregado. Estudava isso na Sociedade Espírita. Poderiam ser efeitos elétricos da própria natureza dos materiais e não a presença de Espíritos.
A razão é o principal guia para a fé espírita.
Porém, de pequenos flashes, os vultos se tornavam grandes expansões de luzes em que de um ponto do teto se abria uma extensa claridade onde eu conseguia ver todos os móveis da sala e do quarto com nitidez para logo a luz retornar ao local de origem. Às vezes eu logo para presenciar tais fenômenos de luzes, ia para a cama cedo e aguardava silenciosa. Nada acontecia. Mas quando desprevenida estava, lá vinham um, dois, três, seis flashes em tempos diferentes, dimensões diversas e sempre próximos do teto. Comentei com minha mãe e padrasto na época. No dia seguinte, os fenômenos começaram de maneira menos intensa a ocorrer no quarto deles. Quando tínhamos visitas, o sofá-cama era aberto e eu como que querendo apresentar algo que havia descoberto, mesmo não sabendo sequer explicar o que era e como ou porque era, indicava aos visitantes que olhassem para o teto que luzes surgiriam. E lá estavam elas atestando com o mesmo brilho suas presenças, sem antes deixar as visitas sutilmente assustadiças, mas que talvez pensassem, não há o que temer, pois se alguém tão jovem não se amedronta, pode ser até algum joguinho de luzes atravessando a janela como reflexo. Imaginem vocês.
Ao chegar próxima aos quinze anos de idade as luzes já não faziam companhia e minha leitura tornava-se cada vez mais séria. Mas meu peito muitas vezes ardia de uma raiva insuperável. De um pendor ao ódio e a violência que por análise não haveria causa razoável, pois nada ocorria para que eu estivesse carregando tamanhas emoções. Outras era uma melancolia tão profunda que somente sabia verter lágrimas como se eu estivesse conectada a outros olhares que realmente choravam em profunda tristeza. E cada vez mais estudando o Espiritismo, aprendia que a mediunidade era essa capacidade de sentir o que outros corações sentiam e mediar esses estranhos fluxos de sensações. Que muitas vezes nada era de fato meu. Que não nascia das minhas experiências, até porque eram demasiadas complexas para tão pouco tempo de vivências.
Me recordo de muitas passagens com presenças mais, digamos assim, presentes. E que me faziam sentir sutil saudade dos flashes. Certa noite lendo um romance espírita e não recordo o nome ou autores, mas estava lendo com um intenso prazer. Quando como que interrompendo meu pensamento de leitura, surge a imagem de O Evangelho Segundo Espiritismo, um dos livros básicos de Allan Kardec. Eu balanço a cabeça como se o movimento pudesse reconectar minha mente à leitura e uma nova impressão da mesma obra surge estampada em minha mente minutos depois. Num suspiro fecho o livro e penso “mas que coisa, que não to interessada em ler o evangelho agora”. E quando fui reabrir o romance, minha cabeça pendeu para o lado e pude ver meu irmão dormindo no colchão no chão, pois a madeira da parte de baixo da beliche havia quebrado, mas ao me deter nele o impacto foi visualizar não com olhos do corpo, mas da minha alma, um homem ao redor de meu irmão com olhar embrutecido e erguendo uma faca esbravejava: “leia para mim, leia para mim o evangelho ou mato seu irmão”. Naquele momento, sem piscar os olhos, pus o romance ao lado do meu corpo e retirei o pequeno livro solicitado pelo Espírito e abrindo rapidamente iniciei a leitura do capítulo onze, “Bem aventurados os misericordiosos”. Por via das dúvidas, realizei a leitura em voz alta. Ao fim da leitura de todo o capítulo, o som do ambiente, o espaço do ambiente, a “vibe” como eu geralmente digo, havia mudado. E voltava a refletir: que saudades dos flashes.
Esse é somente um dos tantos causos que me gravaram na memória e no coração. E fiquei ardentemente pensando, enquanto espírita que sou, quando lemos algum livro, quantas outras existências fora desse corpo material nos acompanham? Quantas histórias aprendemos com as diversas personagens de mil contos, romances, prosas e poesias? Quantas inteligências do além celebram conosco escutando através de nossos pensamentos o intenso mergulho literário nas mais diversas horas em que pensamos estar sozinhos e sozinhas, mas não estamos somente acompanhadas e acompanhados dos heróis e vilões de nossas histórias preferidas.
Talvez eu tenha trago a tona esse tema para um espaço como o do Literatura RS, pois que me importa questionar: como pode a literatura espírita ser tão lida, tão vendida, tão esparsa quando a Doutrina Espírita não é sequer o padrão religioso predominante no Brasil. Talvez porque o próprio Allan Kardec afirma em seus textos fundantes que o Espiritismo não desejaria fazer proselitismo, ou seja, não deseja ter adeptos. E sim, fazer as pessoas felizes.
E por isso, a quem me lê, eu relembro, mesmo à espera de retornar a um trabalho em uma Sociedade Espírita, ao fim de um dia de intenso prazer com as rodas de poesia de slam, um amigo espiritual me disse ao pé do ouvido: “Vês, não te aborreças por não estar por agora em um Centro Espírita trabalhando. Faz das ruas o Centro Espírita e trabalha com a mesma dedicação e afeto e sempre estaremos trabalhando juntos.” Por isso é através da cultura, da arte, da poesia de rua que busco produzir o que for possível, pois que já vi acontecer ali, na praça, no viaduto do Brooklyn ou no asfalto mesmo, a jovem se consolar ouvindo poesia, o mano repensar sua relação com a cocaína, a senhora enfrentar seus medos mais íntimos, o senhor voltar a ter fé na vida e o desesperado abandonar seu plano suicida.
Pois onde estiverem reunidos dois ou três em nome da poesia, aí estará a vida!


Atena Beauvoir é escritora, professora e editora. Licenciada em Filosofia pela UFPEL, Mestranda em Antropologia pela UFRGS é autora de 6 obras entre contos e poesias e finalista do prêmio Minuano 2019 com a obra “Contos Transantropológicos”. É organizadora dos Slam do Gozo, Slam do Espinho e Slam da Voz. Recebeu menção honrosa em 2016 pela defesa da dignidade de pessoas LGBTS na cidade de Canoas/RS.
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